Sara era uma mulher linda, com corpo deslumbrante e talentos peculiares. Era 1979 e o sucesso alcançado fazendo programas com homens da alta sociedade lhe rendeu boas histórias, muito dinheiro e incontáveis segredos do poder.

Mudou-se da capital do país para uma cidade pacata para viver de maneira tranquila, longe do seu passado e das ameaças assustadoras. A casa possuía uma arquitetura colonial e a aparência bem cuidada. Não dava a entender que era um imóvel construído há tanto tempo.

Um sobrado de esquina com sacada para a rua principal, ainda cercada de terrenos vazios. O belo jardim em frente a casa guardava o Landau 1979 azul, com o qual Sara desfilava sua beleza estonteante seduzindo os olhares da população, encantados com tanta desenvoltura.

Um passado conturbado e lembranças trágicas fizeram Sara deixar os velhos hábitos. Ela viveu os 3 primeiros meses da nova vida com um pouco do dinheiro que possuía e começou a procurar uma atividade com a qual pudesse sustentar seus gostos caros. Um dia, andando pela bela mansão que comprara, decidiu abrir um negócio.

Pensou que uma boa reforma poderia dar-lhe a chance de abrir um excelente espaço para um Ateliê de costura fina. Faria vestidos de noiva, unindo o bom gosto adquirido nas altas rodas e seu talento natural aperfeiçoado pela educação que teve em um colégio interno que frequentou em Minas Gerais, antes de sair de casa logo que sua irmã mais nova morreu enforcada.

O porão, que ficava trancado com um antigo cadeado enferrujado, acessível pela entrada lateral do jardim, foi reformado por Aguinaldo. Um pedreiro muito simples mas caprichoso, que Sara contratara. Após negociar um bom preço ela supervisiona o trabalho para que fique perfeito.

Sara contrata, novamente por um bom preço, garçons e uma cozinheira e promove um evento de inauguração de seu Ateliê. Finalmente as pessoas ricas das redondezas conheceriam por dentro aquele jardim maravilhoso. Rapidamente Sara consegue as melhores clientes da região e estabelece sua marca de alta costura para noivas.

No ano de 1982 os negócios vão bem para Sara até uma cliente misteriosa chegar ao seu Ateliê. Uma mulher de beleza ainda mais estonteante que Sara, o que lhe causou certa inveja. Paula, a nova cliente, possuía medidas perfeitas e um certo ar de realeza que Sara, apesar de todo o dinheiro e conhecimento, nunca teve.

Ela não conseguia disfarçar um certo ar rude, depois de tantos anos nas ruas se prostituindo por nada. Sara se lembra de onde vivia com os poucos pertences que conseguiu, entre eles um espelho de corpo inteiro, que levou do último lugar ruim onde vivera, que sempre a acompanhava onde quer que fosse morar.

Paula acerta os detalhes do vestido com Sara. Além da beleza, vaidade e educação, outra coisa que chamou a atenção de Sara é que Paula era diferente das outras, parecia tão decidida estava sempre sozinha em todos os encontros no Ateliê, parecia não ter sequer uma família.

Um mês depois, Paula volta ao ateliê para fazer a primeira prova do vestido completo. Naquele porão deslumbrante, o espelho antigo de corpo inteiro, de madeira escura com entalhes muito bem feitos e detalhados, mostrou à Paula a imagem maravilhosa de uma das noivas mais lindas que um espelho poderia refletir.

Sara nunca se aproximava das clientes para não aparecer no espelho. Deixava a noiva contrastar solene com o jardim que refletia no espelho, formando uma composição digna de cinema. Paula insistiu para que Sara se aproximasse, mas ela recusou. Justificando que o momento era somente da noiva e do espelho mágico, como ela gostava de se referir ao objeto.

Paula não insiste e Sara observa com atenção, um pouco desconcertada, as medidas tão perfeitas daquela mulher. Não havia o que modificar, era como se as proporções de um corpo ideal estivessem diante de seus olhos. Sara não se conformava e uma certa inveja tomava conta de sua mente.

Paula sai da frente do espelho e ficam em frente à Sara. Pergunta-lhe o que ela achava. Sara logo respondeu que estava perfeito. Paula olha no fundo dos olhos azuis de Sara e completa: Está sob medida para um dia de glória.

Sara sente um arrepio nos braços e se assusta quando os olhos de Paula se tornam negros e opacos. Seu rosto fica pálido e afundado. Ela sorri mostrando dentes apodrecidos e pontiagudos.

Sara, arrepiada, não consegue esboçar reação, enquanto Paula põe as mãos geladas e cinzas com dedos compridos e unhas pretas longas, em seus ombros. Um forte cheiro de carne apodrecida toma conta do Ateliê de Sara enquanto os cabelos de Paula se tornam ralos e brancos e seu rosto vai envelhecendo rapidamente.

O cheiro forte de corpos em decomposição fica insuportável mas Sara não consegue se mover. As portas do porão se fecham numa batida dura e forte. As flores do lindo jardim secam como num passe de mágica macabra. O Vestido vai se decompondo como se estivesse em um corpo enterrado.

Sara olha para baixo, observando o vestido se desfazer, enquanto Paula se transforma num corpo em decomposição bem em sua frente. A pele acinzentada, os olhos negros e fundos e a pele quebradiça de um cadáver velho agora tem vermes saindo de suas entranhas.

O cheiro de carne podre toma conta de todo o ambiente e Paula empurra Sara para a frente do espelho com muita força. Sara cai no chão batendo a cabeça. Ao tentar se levantar, passa a mão sobre testa e percebe que está ferida e sangrando. Ela não quer olhar para a frente, com muito medo do que veria no espelho.

Bem devagar, Sara, com as mão cobrindo a visão, levanta a cabeça. Quando está cara a cara com o espelho ela descobre os olhos e o que o espelho mostra é seu maior pesadelo. Ela vê a imagem em que Paula se transformara bem na sua frente. Paula nada mais era que seu próprio reflexo ao vivo, ela pensa.

Enquanto tenta se levantar, Sara percebe uma mão muito forte e suja segurando-a pelos ombros, empurrando-a contra o chão. Ela olha para o espelho novamente e vê Aguinaldo, o pedreiro que havia reformado o seu Ateliê. Desesperada, Sara grita o mais alto que pode pedindo socorro.

Logo ela vê no reflexo do espelho também a imagem de sua irmã, com o rosto roxo e a corda apertada e pendurada no pescoço. Vê também o jardineiro Chico, que cuidava de seu jardim, a equipe de garçons com facas espetadas no coração e Luzia, a cozinheira, segurando sua própria cabeça, pois tinha morrido decapitada. Todos estavam mortos!

Suas almas pareciam estar dentro do espelho, com uma aparência horrível de corpos em decomposição exalando o forte cheiro de carniça.

Sara olha para trás mas não vê nada, quando volta sua visão para o espelho vê aqueles corpos todos em sua volta segurando-a no chão em frente ao espelho. Aqueles olhares macabros demonstravam uma raiva incontrolável sobre Sara. Aquelas almas dentro do espelho estavam sedentas de morte. No espelho, Sara não era a mulher linda de olhos azuis, mas sim aquela imagem cadavérica em que Paula se transformara.

De repente, Sara escuta passos que parecem cascos batendo no assoalho de madeira envernizado que ela cuidara com tanto carinho. Pelo espelho ela vê uma sombra caminhando com uma capa e chifres grossos que eram perceptíveis em meio à pouca iluminação. No reflexo do espelho, bem atrás dela, a sombra se faz cada vez maior enquanto o barulho dos passos se aproxima.

A respiração forte daquele ser aumentava o pavor de Sara e acelerava as batidas de seu coração. Um forte cheiro de carne queimada começa a sufocá-la enquanto o ser se revela à meia-luz no reflexo do espelho. Aquele monstro demoníaco, de corpo disforme e tamanho descomunal, puxa os cabelos de Sara levantando sua cabeça com facilidade.

Era de uma força sobrenatural!

Ele então diz a Sara que veio buscar o que ela lhe devia. Ela começa a chorar e sente seu corpo se decompor como o reflexo no espelho sugere, enquanto o ser reclama as almas que Sara aprisionara dentro do espelho. Ela logo se lembra dos tempos de prostituição e seu nome de guerra, Paula! Era capaz de qualquer coisa para sair daquela vida maldita na boca do lixo.

O reflexo do espelho era o demônio cobrando sua parte no trato. Da pior maneira, Sara descobre que podia enganar a todos menos ao demônio. Ela matou todas aquelas pessoas e aprisionou suas almas no espelho mágico. Enquanto houvesse energia vital naquelas almas, Sara viveria a plenitude de sua beleza, conforme o pacto que fez com o demônio.

O sucesso, a beleza eterna e o talento tinham um preço. Mas Sara nunca cumpriu a sua parte, matando suas noivas. Não haveria perdão para a quebra de acordo.

O demônio sai do espelho com seu corpo peludo, pernas de boi, cabeça de homem e chifres que escorriam sangue fresco. Com suas mãos poderosas, negras e unhas compridas como garras, segura Sara pelo pescoço e a joga dentro do espelho.

Sara agora vê seu Ateliê, lindo como sempre, e o jardim florido de dentro do espelho. O demônio pega uma corrente que traz em sua cintura e quebra o espelho aprisionando Sara para sempre, junto com suas vítimas sedentas por vingança.

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