Nem bem se recuperava da perda da mãe, Michelli, uma garota linda com 23 anos de idade e uma vida inteira pela frente, corre para a delegacia para comunicar o sumiço do pai, há três dias desaparecido.

A polícia empreende uma busca pelo paradeiro do pai de Michelli. O rancho da família logo revelam um acontecimento trágico. A caminhonete de Waldir não estava na garagem, o que indicava que ele havia saído de carro. Seu machado não estava no painel de ferramentas, o que indicava que ele poderia ter saído em direção à plantação de eucaliptos para cortar mourões de cerca.

A Polícia imagina que algo pode ter acontecido: picada de cobra, machucou-se com o machado etc. O delegado pergunta à Michelli qual o caminho para ir de carro à plantação de eucaliptos.

Ela indica uma estrada que beira uma represa. A polícia saiu em direção à estrada e, a aproximadamente mil metros da porteira do rancho, encontra uma cerca arrebentada. A perícia passa pela cerca e desce a ribanceira até encontrar a caminhonete de Waldir destruída, dentro da represa.

A polícia trabalha com a hipótese de ele ter sofrido um acidente, seu carro derrapou, arrebentou a cerca e desceu a ribanceira, matando-o. Porém, seu corpo não estava dentro do carro. A investigação prossegue por alguns meses até a conclusão do inquérito. Embora o corpo não tenha sido encontrado, a polícia dá Waldir como morto em acidente automobilístico, alegando que não havia indícios de crime nem recursos para buscas do corpo naquela represa imensa.

Michelli, a esta altura conformada, queria viver a vida e curtir com seus amigos. Não tinha mais tempo para as coisas do rancho que costumava fazer com seu pai. Ele costumava levá-la à plantação de eucalipto, pescar na represa, alimentar o gado em fazendas vizinhas etc. Michelli era sua motorista, ele tinha dirigido a caminhonete nova apenas para trazê-la para o rancho, no resto do tempo, Michelli sempre estava ao volante.

Sempre que estavam andando na caminhonete, Waldir brincava com Michelli e os dois riam muito juntos. Ela dizia que ia se divertir sozinha com a caminhonete dele, e ele dizia que seria assim até ele tomar o carro dela. Era uma referência à música que Waldir mais gostava: “Fun, Fun, Fun” da Banda Beach Boys.

Michelli, muito ligada ao pai quando criança, ainda recebia mensagens e telefonemas das pessoas se solidarizando com seus sofrimentos. Ela estava ansiosa para, finalmente, poder usar o seguro de vida da mãe, que o pai não dividira com ela, motivo de grande desavença entre os dois dias antes dele morrer.

Entediada com tantos pêsames e demonstrações de carinho, Michelli resolveu sair para se divertir com amigos de uma cidade vizinha, aproximadamente 50km de onde morava. Ela se arruma, passa o melhor perfume para uma noite que seria inesquecível e vai pegar o carro.

Ela entra na garagem e olha com prazer o objeto do desejo: o carro que havia chegado naquele mesmo dia. Era novo, seria sua primeira noite a bordo daquele automóvel maravilhoso. Nunca entendera porque seu pai não queria lhe dar o dinheiro do seguro de vida da mãe, só para que ela não comprasse aquele carro? Que idiota! Pensa Michelli.

Ela entra, se arruma no banco, dá a partida e abre o portão automático da garagem. Sai com o carro, fecha o portão, aperta o cinto de segurança e sai acelerando em direção à rodovia, enquanto respondia a algumas mensagens no Whatsapp.

Quase saindo da cidade Michelli ainda não havia conseguido sintonizar nenhuma rádio, pois o diálogo com as amigas sobre a noite promissora estava agitado. O belo carro azul escuro e reluzente pegou a alça de acesso e seguiu em direção à autoestrada.

Michelli dirigia pela rodovia em alta velocidade. Seu novo carro era potente e engolia o asfalto enquanto ela tentava sintonizar uma rádio de rock qualquer em seu smartphone.

A velocidade já estava em 150km/h e Michelli continuava pisando fundo no acelerador enquanto olhava seu celular em busca de uma boa música.

Quando encontra uma rádio disponível ela seleciona e fica à espera do início da música. Com a mão firme no volante, ela olha de canto de olho para a estrada vazia, iluminada pelos grandes faróis do carro que seguia engolindo o asfalto agora a 170km/h.

A internet do celular finalmente libera a música da rádio que começa a tocar alto no som do carro, via Bluetooth, o trecho de uma música familiar “…And with the radio blasting Goes cruising just as fast as she can now…”. Michelli reconhece a canção e se assusta. Numa rápida olhada para a frente, vê seu pai no meio da rodovia.

Numa tentativa desesperada ela pisa no freio com força e vira o volante, a toda velocidade o carro derrapa vai em direção ao canteiro central da rodovia, bate numa valeta e sai capotando violentamente e girando no ar algumas vezes até cair com as rodas viradas para cima.

Enquanto se recupera do susto e se dando conta de que sofreu um grave acidente, Michelli, agora dentro do carro capotado, olha para a frente na tentativa de enxergar algo. A rodovia está deserta, ela não tem mais a iluminação dos faróis e a única coisa que ouve é o barulho do vento que sopra e balança o canavial de um dos lados da rodovia.

Michelli não sente dores, mas sabe que está encrencada e presa ao carro. Por um minuto pensa que a escolha daquele modelo fora um acerto, pois a grande segurança a mantivera viva durante o violento capotamento.

Ela lembra-se do que causou o acidente e tenta encontrar em volta a figura do seu pai, que tinha visto no meio da pista. Em vão! Ela então começa a gritar por socorro com todo o poder que restara de sua voz. Mas está sozinha.

Ao ouvir o barulho de passos de uma bota de cowboy batendo contra o asfalto, ela pergunta pelo pai, mas sem resposta. De repente, sente um forte cheiro de combustível e percebe que o carro está sendo cercado pela gasolina que vaza do tanque. Ela tenta manter a calma enquanto pensa numa maneira de se livrar do cinto e se soltar das ferragens que prendem suas pernas.

O “click” de um isqueiro Zippo abrindo chama a atenção de Michelli na escuridão. Ela reconhece aquele barulho dos tempos que pediu e brigou com seu pai para que ele parasse de fumar. O cheiro do Marlboro aceso invade o carro e faz a garota ter certeza de que seu pai estava ali.

– Pai? Pergunta Michelli

– Você está aí? Me ajude a sair do carro, por favor! Diz ela Quase chorando.

Uma voz meio rouca responde de volta:

– Calma filhinha, o papai veio te buscar.

Então Michelli escuta o Zippo fechando e sente um alívio. Ela escuta as botas caminharem em sua direção e percebe quando elas ficam ao lado do motorista, pisando sobre o combustível que vazava.

– Pai me tira daqui, por favor! Diz Michelli desesperada.

Ela olha para o lado e vê o par de botas, a barra de uma calça jeans suja de barro e um cigarro caindo sobre o combustível, fazendo o carro explodir em chamas.

– Nãaaaaao! Gritou Michelli.

Aos poucos, enquanto sua vida vai embora e seu corpo arde em fogo, Michelli consegue soltar-se do cinto e das ferragens que prendiam suas pernas e seu corpo e, como que por milagre, sai do carro andando. Ela olha para suas mãos queimadas e sua imagem refletida na lataria do carro. Agora não é a mesma garota linda que despertava paixão nos garotos, era uma criatura destruída pelo fogo, somente um corpo queimado.

O rádio toca alto, de repente, aquela música de novo: “…And she’ll have fun fun fun / ‘Til her daddy takes the T-Bird away…” Ela olha para a frente e dá de cara com seu pai. Era aquele homem, ainda com o machado atravessado na cabeça, sujo com a terra da cova onde ela o enterrou.

Author

Você Gosta de Ler Histórias, Assistir Filmes, Séries e Ficar por Dentro dos Lançamentos do Gênero de Terror/Suspense? Aqui você Encontra Histórias Assustadoras, Dicas e Novidades de Filmes Livros, Games e Muito Mais.

Write A Comment