01

Grace acorda assustada e não consegue perceber o que está ao seu redor. Aos poucos, a visão turva vai melhorando e revelando uma paisagem sombria. Uma neblina densa cobre o chão, restando a ela observar a copa das árvores cinzentas e cipoais sombrios e sem vida. Como um estranho cenário clichê, de um filme “B”.

Aquele pântano não era novidade. Como em muitas noites de lua cheia, costumava ir à beira do lago com seus amigos para ver o reflexo da lua dourada na superfície da água. Era sempre um espetáculo de luz no céu e na água. Regado a cerveja barata, cigarros vagabundos e muita bobagem sobre rituais de vida eterna e lendas urbanas.

Mas desta vez havia algo diferente. Estava sozinha, pensava se tinha ido longe demais com a bebedeira. Teria exagerado a ponto de seus amigos a terem abandonado no meio do nada?

Suas forças estavam sendo recompostas enquanto ela tentava se levantar, sentindo uma dificuldade enorme para mover seu corpo, de apenas 54kg, com seus 1,50m de altura. 

As lembranças bagunçadas se misturavam às possibilidades, mas nada dava sinal de como ela teria chegado ali. O que poderia explicar ela estar deitada no meio do pântano? Será mesmo que seus amigos teriam ido embora sem ela? Com todos os tipos de animais peçonhentos e outros carnívoros habitantes da área?

Ainda confusa, ela se esforça para levantar e tentar seguir de volta para casa. 

Era estranho como não era capaz de se lembrar de nada. Mas conseguia perceber que estava num lugar onde já estivera antes. Não era um pântano totalmente estranho. Embora a situação ainda a embaraçasse, parecia óbvio que voltar para casa era só uma questão achar a direção certa e, durante o caminho, suas lembranças mostrariam o que acontecera.

Porém, uma olhada mais atenciosa ao redor, mostra à Grace que voltar para casa não será tarefa fácil. As árvores parecem todas iguais. Sua indisposição atrapalha seu raciocínio, não consegue pensar num caminho a ser seguido. Ela tem a impressão que todas as direções podem ser os caminhos corretos. Ainda com dores múltiplas pelo corpo, sente a brisa fria da madrugada no pântano pouco iluminado, mesmo em noite de lua cheia.

As plainas que balançam nos cipoais eram como birutas que tremulavam ao menor deslocamento do vento. Grace tem a sensação de que poderia ser uma indicação de qual lado iniciar sua caminhada. Tentava identificar algo no ar que pudesse ajudar. Algum cheiro, algum som, qualquer pista.

Uma vaga lembrança da noite. Não havia bebido, sequer tinha sentido ressaca ou coisa parecida. Não tinha gosto de cigarro na boca. Grace vai ficando ainda mais aflita, pois não consegue entender o que está acontecendo. Seria um pesadelo? Ela passa as mãos tateando seu corpo para ter certeza de que aquilo está acontecendo.

De repente ela teve um insight de como prosseguir. Era como nos seriados de sobrevivência da TV, só que agora, era real. Como os caçadores nos filmes de selvas e safáris, era preciso ficar a favor do vento, para que os predadores não a seguissem, pensou Grace – sem saber se era essa a história correta. 

Novo golpe da brisa gelada nas pernas nuas e pés descalços da garota. Ela dá um passo a favor do vento.

Mais 15 passos adiante e Grace cai dentro de um lamaçal, no meio do pântano. O pé direito pisou em falso, afundou num pequeno barranco até encostar na lama, que sugou sua perna. Seu corpo foi projetado para a frente, jogando Grace com força contra uma poça de barro.

Agora ela estava com uma perna afundada no barro, a outra dobrada sobre a lama e sendo sugada. Seu corpo, dobrado na cintura, projetava sua cabeça para a frente, espalhando o tórax de Grace numa lama fétida e pegajosa. Por pouco seu rosto não afundou também.

Depois do susto, enquanto aquietava seu coração disparado, pensava que poderia ter batido com a cara na lama. Aspirando aquela gosma marrom-esverdeada, nojenta e fedida, que poderia matá-la afogada.

02

Imaginando que não seria uma tarefa fácil sair daquele lugar, conforme pensara antes, Grace começa a se movimentar desesperadamente para se descolar da lama. Era como se houvesse um vácuo que a impedia de se livrar do atoleiro. À medida que ela ia se movimentando, mais seu corpo afundava. Desesperada, se debatia ainda mais, fazendo seu corpo ser sugado quase totalmente até a cintura. 

Grace se acalma e experimenta outra maneira de se livrar do barro. Se mexendo por cima do barro como uma serpente, com braços colados ao corpo ela consegue avançar. Tentando manter sua boca longe da lama, a garota consegue se livrar aos poucos, se esquivando para a frente. Soltando a parte da cintura até conseguir livrar suas pernas, agora mantidas juntas.

O silêncio da paisagem somente é interrompido por galhos que caem no chão e pelo chirriar das enormes corujas pretas comedoras de roedores. As corujas, na cultura local, eram indício de mal-presságio. A esta altura, porém, Grace não pensava a respeito, apenas seguia serpenteando e conseguindo chegar à beira da terra firme.

Ao alcançar a borda, ela se agarra a uma raiz e usa toda a sua força para puxar seu corpo para fora daquele lamaçal pegajoso que a prendia. Parecia que as dores sentidas por Grace haviam desaparecido, momentaneamente, devido ao esforço que estava fazendo e à alta descarga de adrenalina.

Depois de conseguir puxar metade de seu corpo para fora da lama, ela vira de barriga pra cima e dá um descanso a si mesma. Ofegante, se parabeniza pela força que descobriu ter. 

Começa a buscar na memória. Nova tentativa de encontrar pistas de como havia chegado lá. Naqueles trajes, numa noite de lua cheia, no meio do pântano, sozinha. Devia ser algo muito importante ou inusitado. Começa a rememorar que tipo de atividades tinha em sua agenda. Que livros estava lendo e com que amigos estava andando nas últimas horas.

– O que eu vim fazer aqui? Pergunta Grace.

Mais alguns minutos de descanso e retoma a saída lenta e progressiva do lamaçal, se arrastando até se livrar completamente do barro. Ainda sem respostas das memórias.

Apesar da noite fria e úmida, a lama rapidamente vai secando e colando na pele de Grace se transformando numa espécie de segunda pele. Apesar de não conseguir tirá-la, a garota sente que a lama não atrapalha seus movimentos de braços e pernas. Ela então se ocupa de livrar seus braços das raízes e folhas secas. 

Quanto mais ela esfrega as mãos para tirar a sujeira, mais a lama vai se espalhando uniforme sobre sua pele. Agora os braços não têm grama, folhas nem raízes, mas acabam cobertos também com aquela lama fétida. Apenas seu tronco não havia entrado em contato com a lama. Grace estava usando uma camisola branca, de dormir, tecido bem leve. Que agora parecia ser feita de chumbo.

Ao tentar se levantar para seguir em frente, ela se dá conta de que a roupa atrapalha seus movimentos, à medida que a lama endurece sobre as fibras do algodão. Pedaço por pedaço, fio por fio. Grace tenta descolar a lama da roupa para ter mais liberdade e conseguir sair do pântano.

Sentada à beira do lamaçal ela tenta, em vão, livrar sua camisola daquele barro estranho e pegajoso. A lama que aderiu à pele era leve como um tecido. Mas na roupa parecia uma carapaça de metal muito pesada. Era preciso muita força para se levantar com tanto peso. 

O barulho de gravetos quebrando assustam Grace, que fica em estado de alerta máximo. Pupilas dilatadas para a entrada da pouca luz noturna. Tentava identificar a todo custo o que vinha. Seu corpo imóvel era tão rígido que chegava a atrapalhar as batidas aceleradas do coração.

Com movimentos rápidos para um lado e para outro de seus olhos, Grace tenta identificar o que teria quebrado aqueles gravetos e de qual direção vinham. Os barulhos começam a ficar mais constantes e compassados, o que fez Grace acreditar que seriam passos.

Eram passos de pessoas? Parecem ser passos de animais de 4 patas. Uma breve reflexão e ela não consegue identificar qual o tipo de animal poderia ser.

03 

Os crocodilos do pântano fariam barulho com a barriga arrastando ou se movimentariam pela água. Lobos não caçam em pântanos e, se fossem eles, aqueles uivos assustadores já teriam ecoado entre as copas das árvores.

A neblina branca e densa ainda cobria o chão e a brisa fria chacoalhava mais intensamente os cipós cinzentos sem vida e as birutas de musgo, indicando à Grace que o vento mudara de direção.

Ela fecha os olhos e tenta sentir algo no ar, enquanto os passos ficam cada vez mais ágeis e rápidos e o som cada vez mais próximo. O coração de Grace dispara atrapalhando a concentração e ela se deita no chão tentando se esconder sob a névoa densa que começa a se acumular ao redor da área onde ela está.

Um misto de desespero e incredulidade toma conta dos pensamentos da garota exausta. Cada movimento para movimentar seu corpo fica mais difícil à medida que a lama vai se fundindo à roupa. Ao contrário dos braços e pernas leves, a camisola parece agora uma âncora.

Em meio aos raios do luar nas árvores, a luz do que pareciam lanternas de duplo foco começam a perfurar a névoa buscando algo no chão. Grace percebe que há um conjunto de luzes se movimentando em meio à neblina que dissipa o foco, mas ainda assim não esconde os feixes que se movimentam em dupla por várias direções.

As luzes parecem buscar algo enquanto os passos ficam mais altos e mais lentos. Grace percebe que o cheiro forte da lama fica muito mais intenso, tomando conta do ar. Alguma coisa ou alguém está à espreita e muito próximo, pressente a garota.

Com a ajuda dos braços e pernas Grace consegue se movimentar, apesar da roupa pesada. Ela rasteja cuidadosamente para dentro da lama novamente evitando fazer barulho. A agitação de uma nuvem de morcegos que voa entre o cipoal, faz com que as luzes se voltem para cima.

O alto som da nuvem de morcegos e a agitação das corujas faz com que Grace aproveite para se arrastar definitivamente para dentro da lama. As pernas primeiro e depois o corpo, que vai passando por dentro da camisola impregnada e pesada com aquela lama pegajosa e mal-cheirosa. 

De maneira hábil ela tenta se livrar da camisola enquanto rasteja, fazendo com que seu corpo passe por dentro da roupa. Com o corpo já na lama, ela consegue livrar sua cabeça da camisola impregnada e fica nua sob a neblina, que a mantém escondida. 

O tempo parecia uma eternidade. Ainda que em poucos minutos ela tenha conseguido voltar para o atoleiro e ainda, num golpe de perícia, se livrar daquela roupa. Que agora era devorada pela lama. 

O silêncio impera novamente no pântano após a revoada dos morcegos e o sumiço das corujas. Grace abre os braços e pernas para manter-se sobre a lama e facilitar seus movimentos. O barro começa a grudar em suas costas nuas, aquecendo seu corpo e dando uma sensação de leveza. Quase como se estivesse flutuando. É uma boa sensação mas ela não se distrai.

Os feixes de luz duplos voltam a vasculhar a área e a luz difusa na neblina vai se aproximando de Grace, que não escuta mais os gravetos. Era como se não houvesse mais nada no chão além de terra. Ela pensa que pode se esconder no pequeno barranco, dentro da lama. Corpo espraiado, respiração lenta e silenciosa. 

O coração acelerado trabalha forte para manter o corpo todo de Grace em alerta e funcionando, enquanto a fria brisa tenta levar suas forças, derrubando a temperatura de sua pele. Parece que a lama estava perdendo para o vento, a esta altura.

A garota, num último ato de desespero, resolve se camuflar. Passando aquela lama pegajosa pelo resto do corpo que ainda estava nu. Pescoço, rosto, barriga, seios, laterais do tronco, tudo agora está enlameado e fedorento. A lama no rosto levou o cheiro horrível da gosma a níveis insuportáveis.

Rapidamente, Grace sente a temperatura de sua pele aquecer novamente, como se a lama formasse uma roupa protetora. Enquanto o barro vai secando, ela sente mudanças inexplicáveis. Como uma estranha paz que diminui as batidas de seu coração e suaviza o mal cheiro, tornando-o suportável como nunca. Fazendo até passar a ânsia de vômito que quase a fez delatar sua localização.

04

As luzes continuam a vasculhar o pântano silencioso. Grace permanece imóvel e fecha seus olhos. Um súbito sono toma conta dela como o efeito de um sedativo. A garota começa a sonhar acordada com imagens terríveis que tomam conta de sua mente. Eram pesadelos com criaturas que viviam no pântano. 

Pareciam árvores demoníacas que tinham olhos avermelhados e dentes compridos e pontiagudos de madeira. A boca era como um buraco na casca das árvores de onde saíam línguas trançadas de dezenas de cipós. Os galhos brotavam uns dos outros como se fossem cobras envolvendo tudo que se movia.

As árvores iam se multiplicando à medida que Grace flutuava em seu sonho. Coelhos, que na verdade não existiam naquele pântano, passeavam pelo barro e eram pegos pelas árvores que os rasgavam em dois e engoliam. Grandes quantidades de musgo saíam das bocas das árvores, ensanguentados, quando elas engoliam os animais. Como se vomitassem o musgo em troca de carne fresca.

Não fazia sentido!

Das árvores demoníacas, em um flash, Grace já se via numa névoa branca, cercada por lobos gigantes. Eram feras raivosas e cinzentas com dentes de sabre amarelados e secos. Como se as feras não comessem há muito tempo. Não havia saliva nem brilho na boca dos lobos, que tinham globos oculares vazios. Pareciam criaturas empalhadas animadas por uma força demoníaca.

Entre um delírio e outro ela consegue forças para abrir os olhos e percebe que há um par de feixes de luz vasculhando bem ao seu lado. Ela pensa estar bem protegida pela camuflagem, enquanto volta aos delírios sobre árvores que matam animais e bichos empalhados.

Agora aquelas árvores soltavam raízes do chão e caminhavam. Pendurados em seus galhos, pessoas enforcadas chacoalhavam como brincos. Era uma coleção de cadáveres pendurados com o rosto roxo como se tivessem acabado de morrer. Os olhos eram como os dos lobos, globos oculares vazios. 

O delírio de Grace era tão grande que sentia vontade de gritar. As imagens não paravam de aparecer em sequência em sua cabeça. As pessoas enforcadas e penduradas utilizavam roupas diferentes, como se fossem de várias épocas no tempo. A garota não identificou nenhum amigo pendurado naquelas árvores. O que ajudou a segurar o grito de pavor.

O chocalho de uma enorme cascavel boca de algodão tremula forte e parece tirar Grace do transe. Ela agora está alerta novamente. Vê as coisas como um dia claro, parece ter um par de lanternas nos olhos. Levanta-se com facilidade, como se sua força tivesse triplicado.

Mas há algo estranho, ela está muito mais alta, consegue acessar a copa das árvores com braços compridos que não tinha antes. Para onde quer que olhe, o par de feixes ilumina o foco de seu olhar. 

Ela sente um incômodo na barriga como se algo estivesse lá dentro, de repente, como num espirro súbito e incontrolável, uma enorme língua de cipó sai da boca de Grace e pega a cascavel boca de algodão que estava enrolada em seu pescoço. O cipó traz a cobra à boca de Grace para ser devorada pela garota.

Sentindo-se revigorada, ela volta-se para o lado esquerdo e vê seu corpo vestido com a camisola branca preso a uma árvore pelo cipó, apertado em volta do pescoço. Ao lado, centenas de outros corpos aprisionadas sob a raiz de um grande cipoal. Seus globos oculares vazios mostravam que os olhos não haviam sido poupados.

– Já sei o que vim fazer aqui. Responde Grace, a si mesma.

Agora ela vê com clareza o caminho e os outros feixes de luz, criaturas assustadoras e demoníacas. São como árvores que se movem com mãos e pés de cipó. Ora caminham sobre o chão, ora se fixam a ele. O barulho dos gravetos quebrando soam como um convite a Grace, para vasculhar a madrugada junto com as outras criaturas do pântano.

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