HISTÓRIAS DE TERROR

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Histórias de Terror

Categoria: Contos de Terror

A Porta do Outro Mundo

Contos de Terror Curtos para Ler - A Porta do Outro Mundo
Contos de Terror Curtos para Ler – A Porta do Outro Mundo

Ana Paula Vai te Contar uma História sobre a Porta do Outro Mundo.


Eu abri a porta do outro mundo! Eles me esperavam lá. Um forte cheiro de corpo em decomposição tomava conta do ambiente quando aqueles demônios se aproximavam de mim. Exatamente como eu imaginava em meus sonhos, com suas feições malignas, pele queimada, dentes pontiagudos e vermelhos escorrendo sangue.

Eu gritava com eles para se afastarem mas a minha voz não saía. Quanto mais eu me esforçava para não acreditar, mais forte o cheiro ficava e mais próximo das criaturas eu estava. Eram tantos demônios que eu não conseguia entender o que se passava. Eles sussurravam todos ao mesmo tempo palavras confusas.

De repente, meus olhos começaram a ficar brancos como uma tela de pintura, as imagens que passavam diante de meus olhos pareciam um filme esquisito de cinema, daqueles sem sentido. Eu via muitos corpos de animais, muitas moscas sobre as carcaças e um cachorro machucado e com os músculos da perna direita dilacerados. Ele abanava o rabo para mim e parecia familiar. Na hora me lembrei do Benji, um querido amigo que foi atropelado por um vizinho que dirigia bêbado.

Lembro de quando enterrei o Benji e também da última vez que o vi. Na esperança de ver que ele havia sobrevivido, desenterrei seu corpo 15 dias depois e ele estava em decomposição, aquele cheiro veio à minha mente. Era o mesmo que senti quando abri a porta do outro mundo.

Lembrei naquela hora que os pesadelos começaram justamente no dia em que desenterrei o Benji. Chamei o Benji para perto de mim. Ele, como sempre, veio abanando o rabinho ofegante de tanta felicidade. Quando estendi a mão para tocá-lo uma das criaturas gritou palavras que eu não entendi. O Benji, em minha frente, começa a rosnar estranhamente alto, não parecia meu amiguinho de criança. Ele abaixa a cabeça e levanta novamente.

Agora era uma criatura disforme com dentes enormes que avançava para cima de mim. Caí para trás, incrédula. A criatura tinha os mesmos machucados do Benji mas havia se transformado em um demônio de olhos vermelhos com íris verticais, como as cobras. Benji, ou seja lá no que ele tinha se transformado, não me alcançou quando tentou me morder. Agora estava sendo controlado por muitas criaturas sombrias através de uma corrente que ardia em chamas e iluminava parte do cômodo escuro onde eu estava.

Me levantei e perguntei o que estava acontecendo. Não obtive resposta! Comecei a gritar e as criaturas foram se afastando, inclusive o Benji, antes alvoroçado e bravo, agora colocava o rabo destroçado entre as pernas dilaceradas e voltava para o lado mais escuro do cômodo, enquanto as chamas da corrente se apagavam me deixando na mais completa escuridão.

Foi então que uma fumaça passou pelo meu pescoço e parecia falar comigo, uma voz bem de longe vinha se aproximando, enquanto meus olhos ia retomando a forma natural. Quando recuperei a visão, estava em um lugar que mais aprecia um castelo, com paredes grandes e teto bem alto. Não havia objetos à mostra, apenas um trono vermelho enorme em minha frente e iluminado por tochas presas em tripés de metal.

Uma criatura foi tomando um formato humanóide no trono e dois olhos vermelhos se abriram em meio a fumaça, cada vez mais densa e concentrada. A voz que eu ouvira era daquela fumaça ou seja lá o que fosse aquilo.

– O que está acontecendo? Por que eu estou aqui? Perguntei.
– Você abriu a porta do outro mundo, uma vez aberta, você tem que fechar! Uma voz demoníaca e grossa respondeu.
– Quando eu abri a porta que não me lembro? Questionei amedrontada.

O Demônio puxa uma corrente e a estala como um chicote. Num instante a corrente pega fogo e Benji aparece preso a ela, naquela forma enorme e diabólica novamente. Ele rosna para mim com aqueles dentes enormes e deita-se em frente ao trono para proteger a criatura de fumaça.

– Quando você enterrou o animal ele passou a ser propriedade minha! Como ousa desenterrá-lo? Acha que pode me roubar? Disse a voz com tom agressivo e indignado.

Assustada, eu penso em me desculpar mas, rapidamente, me vejo no escuro novamente. Quando alguma luz ilumina o ambiente, estou novamente naquele cômodo fétido que entrei quando atravessei a porta do outro mundo. As criaturas que me causaram pesadelos desde o dia que desenterrei o Benji estavam lá. Mas agora eu podia entender o que diziam, os demônios me acusavam de ter perturbado o sono eterno deles, quando abri a cova.

– Tudo que vem para baixo da terra é propriedade do demônio. Sussurraram as criaturas em coro!

Olhei para trás e não vi mais a porta por onde entrei. Tentei correr para qualquer lado mas parecia que eu não saía do lugar. Entendi que estava presa! Nada mais me restou a não ser obedecer a esses demônios para que me deixem dormir em paz. O combinado é perturbar os sonhos de outras pessoas, por isso estou aqui, pendurada no teto por uma corda. Olhe para trás!

___
FIM
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Esta é uma Obra de Ficção qualquer semelhança de nomes, acontecimentos e lugares etc é mera coincidência. O Conteúdo Deste Post Pertence ao Autor e é Protegido pela Lei de Direitos Autorais

Morte e Vingança

Contos de Terror Curtos - Morte e Vingança
Contos de Terror Curtos – Morte e Vingança

Michelli, uma garota de 23 anos e um futuro promissor, fez de tudo para mudar seu destino. Mas jamais imaginou ser vítima de sua própria ganância.


Nem bem se recuperava da perda da mãe, Michelli, uma garota linda com 23 anos de idade e uma vida inteira pela frente, corre para a delegacia para comunicar o sumiço do pai, há três dias desaparecido.

A polícia empreende uma busca pelo paradeiro do pai de Michelli. O rancho da família logo revelam um acontecimento trágico. A caminhonete de Waldir não estava na garagem, o que indicava que ele havia saído de carro. Seu machado não estava no painel de ferramentas, o que indicava que ele poderia ter saído em direção à plantação de eucaliptos para cortar mourões de cerca.

A Polícia imagina que algo pode ter acontecido: picada de cobra, machucou-se com o machado etc. O delegado pergunta à Michelli qual o caminho para ir de carro à plantação de eucaliptos.

Ela indica uma estrada que beira uma represa. A polícia saiu em direção à estrada e, a aproximadamente mil metros da porteira do rancho, encontra uma cerca arrebentada. A perícia passa pela cerca e desce a ribanceira até encontrar a caminhonete de Waldir destruída, dentro da represa.

A polícia trabalha com a hipótese de ele ter sofrido um acidente, seu carro derrapou, arrebentou a cerca e desceu a ribanceira, matando-o. Porém, seu corpo não estava dentro do carro. A investigação prossegue por alguns meses até a conclusão do inquérito. Embora o corpo não tenha sido encontrado, a polícia dá Waldir como morto em acidente automobilístico, alegando que não havia indícios de crime nem recursos para buscas do corpo naquela represa imensa.

Michelli, a esta altura conformada, queria viver a vida e curtir com seus amigos. Não tinha mais tempo para as coisas do rancho que costumava fazer com seu pai. Ele costumava levá-la à plantação de eucalipto, pescar na represa, alimentar o gado em fazendas vizinhas etc. Michelli era sua motorista, ele tinha dirigido a caminhonete nova apenas para trazê-la para o rancho, no resto do tempo, Michelli sempre estava ao volante.

Sempre que estavam andando na caminhonete, Waldir brincava com Michelli e os dois riam muito juntos. Ela dizia que ia se divertir sozinha com a caminhonete dele, e ele dizia que seria assim até ele tomar o carro dela. Era uma referência à música que Waldir mais gostava: “Fun, Fun, Fun da Banda Beach Boys”.

Michelli, muito ligada ao pai quando criança, ainda recebia mensagens e telefonemas das pessoas se solidarizando com seus sofrimentos. Ela estava ansiosa para, finalmente, poder usar o seguro de vida da mãe, que o pai não dividira com ela, motivo de grande desavença entre os dois dias antes dele morrer.

Entediada com tantos pêsames e demonstrações de carinho, Michelli resolveu sair para se divertir com amigos de uma cidade vizinha, aproximadamente 50km de onde morava. Ela se arruma, passa o melhor perfume para uma noite que seria inesquecível e vai pegar o carro.

Ela entra na garagem e olha com prazer o objeto do desejo: o carro que havia chegado naquele mesmo dia. Era novo, seria sua primeira noite a bordo daquele automóvel maravilhoso. Nunca entendera porque seu pai não queria lhe dar o dinheiro do seguro de vida da mãe, só para que ela não comprasse aquele carro? Que idiota! Pensa Michelli.

Ela entra, se arruma no banco, dá a partida e abre o portão automático da garagem. Sai com o carro, fecha o portão, aperta o cinto de segurança e sai acelerando em direção à rodovia, enquanto respondia a algumas mensagens no Whatsapp.

Quase saindo da cidade Michelli ainda não havia conseguido sintonizar nenhuma rádio, pois o diálogo com as amigas sobre a noite promissora estava agitado. O belo carro azul escuro e reluzente pegou a alça de acesso e seguiu em direção à autoestrada.

Michelli dirigia pela rodovia em alta velocidade. Seu novo carro era potente e engolia o asfalto enquanto ela tentava sintonizar uma rádio de rock qualquer em seu smartphone.

A velocidade já estava em 150km/h e Michelli continuava pisando fundo no acelerador enquanto olhava seu celular em busca de uma boa música.

Quando encontra uma rádio disponível ela seleciona e fica à espera do início da música. Com a mão firme no volante, ela olha de canto de olho para a estrada vazia, iluminada pelos grandes faróis do carro que seguia engolindo o asfalto agora a 170km/h.

A internet do celular finalmente libera a música da rádio que começa a tocar alto no som do carro, via Bluetooth, o trecho de uma música familiar “And with the radio blasting

Goes cruising just as fast as she can now…” Michelli reconhece a canção e se assusta. Numa rápida olhada para a frente, vê seu pai no meio da rodovia.

Numa tentativa desesperada ela pisa no freio com força e vira o volante, à toda velocidade o carro derrapa vai em direção ao canteiro central da rodovia, bate numa valeta e sai capotando violentamente e girando no ar algumas vezes até cair com as rodas viradas para cima.

Enquanto se recupera do susto e se dando conta de que sofreu um grave acidente, Michelli, agora dentro do carro capotado, olha para a frente na tentativa de enxergar algo. A rodovia está deserta, ela não tem mais a iluminação dos faróis e a única coisa que ouve é o barulho do vento que sopra e balança o canavial de um dos lados da rodovia.

Michelli não sente dores, mas sabe que está encrencada e presa ao carro. Por um minuto pensa que a escolha daquele modelo fora um acerto, pois a grande segurança a mantivera viva durante o violento capotamento.

Ela lembra-se do que causou o acidente e tenta encontrar em volta a figura do seu pai, que tinha visto no meio da pista. Em vão! Ela então começa a gritar por socorro com todo o poder que restara de sua voz. Mas está sozinha.

Ao ouvir o barulho de passos de uma bota de cowboy batendo contra o asfalto, ela pergunta pelo pai, mas sem resposta. De repente, sente um forte cheiro de combustível e percebe que o carro está sendo cercado pela gasolina que vaza do tanque. Ela tenta manter a calma enquanto pensa numa maneira de se livrar do cinto e se soltar das ferragens que prendem suas pernas.

O “click” de um isqueiro Zippo abrindo chama a atenção de Michelli na escuridão. Ela reconhece aquele barulho dos tempos que pediu e brigou com seu pai para que ele parasse de fumar. O cheiro do Marlboro aceso invade o carro e faz a garota ter certeza de que seu pai estava ali.

– Pai? Pergunta Michelli

– Você está aí? Me ajude a sair do carro, por favor! Diz ela Quase chorando.

Uma voz meio rouca responde de volta:

– Calma filhinha, o papai veio te buscar.

Então Michelli escuta o Zippo fechando e sente um alívio. Ela escuta as botas caminharem em sua direção e percebe quando elas ficam ao lado do motorista, pisando sobre o combustível que vazava.

– Pai me tira daqui, por favor! Diz Michelli desesperada.

Ela olha para o lado e vê o par de botas, a barra de uma calça jeans suja de barro e um cigarro caindo sobre o combustível, fazendo o carro explodir em chamas.

– Nãaaaaao! Gritou Michelli.

Aos poucos, enquanto sua vida vai embora e seu corpo arde em fogo, Michelli consegue soltar-se do cinto e das ferragens que prendiam suas pernas e seu corpo e, como que por milagre, sai do carro andando. Ela olha para suas mãos queimadas e sua imagem refletida na lataria do carro. Agora não é a mesma garota linda que despertava paixão nos garotos, era uma criatura destruída pelo fogo, somente um corpo queimado.
O rádio toca alto, de repente, aquela música de novo: “…And she’ll have fun fun fun / ‘Til her daddy takes the T-Bird away…” Ela olha para a frente e dá de cara com seu pai. Era aquele homem, ainda com o machado atravessado na cabeça, sujo com a terra da cova onde ela o enterrou.

___
FIM
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Esta é uma Obra de Ficção qualquer semelhança de nomes, acontecimentos e lugares etc é mera coincidência. O Conteúdo Deste Post Pertence ao Autor e é Protegido pela Lei de Direitos Autorais

A Fábrica

Contos de Terror Inéditos - A Fábrica - historiasdeterror.com.br

Contos de Terror Inéditos – A Fábrica – historiasdeterror.com.br

Otávio era um funcionário brilhante que foi diversas vezes premiado por seus superiores. Mas ele realmente conhecia o fruto de seu trabalho?

Otávio preparava-se para o dia de trabalho glorioso na Fábrica. Era o orgulho de uma família pobre de 13 irmãos, típica dos anos 50. A Fábrica era o lugar onde muitos sonhavam em trabalhar e poucos conseguiam a glória de entrar pelos portões imponentes de ferro, com leões esculpidos em bronze e postados ao lado de cada pilar que escorava o portão e o muro alto e assustador, que se estendia ao redor da estrutura.

Um trem preto-reluzente chegava cada 3 horas trazendo do país inteiro nova matéria-prima para a Fábrica. Depois de uma operação minuciosa de inspeção e descarga da matéria-prima, o trem preto-reluzente levava embora a produção com extrema eficácia.

Trabalhar naquela Fábrica era ter um alto salário, levar uma vida confortável, ter privilégios e muito prestígio social. Que o diga o solteirão Otávio que ostentava pelas ruas da capital seu Cadillac Eldorado ano 1953 cheio de detalhes cromados que, à luz do sol, ofuscavam a visão das pessoas que andavam pelas ruas tranquilas e pacatas daquela cidade modelo.

Otávio era diferente dos irmãos, primeiro colocado em todo o período escolar, foi chamado para trabalhar na fábrica desde os 16 anos de idade. Naquela época poucos conseguiam estudar e o cargo de Office Boy para um garoto de 16 anos e família pobre parecia promissor. Era o único de sua casa que tinha bons sapatos para calçar e boas roupas para vestir. A Fábrica não permitia andar pelas ruas que não fosse em trajes impecáveis.

Era fácil identificar os trabalhadores da Fábrica, eles andavam orgulhosos com seus crachás presos às roupas onde quer que fossem. O tratamento e reverência destinado ao trabalhadores eram um convite a deixar seus crachás à mostra, mesmo que isso fosse uma recomendação expressa: jamais andar sem eles. Em qualquer situação!

Otávio, o mais velho dos 13 irmãos morava em uma bela casa no centro da cidade, próximo a uma linda lagoa natural com ipês rosas e amarelos em suas bordas. Nos fins de tarde, ele costumava sair em sua varanda, geralmente acompanhado de uma garota de programa oferecida pela própria Fábrica, para olhar o reflexo das árvores e dos belos ipês floridos nas águas tranquilas da lagoa.

A fumaça percorria o caminho rumo ao céu tomando formatos de caracol ora maiores ora menores, enquanto ele saboreava seu Hollywood, recém saído da carteira de cigarro metálica com o logo da Fábrica pintado de preto e vermelho. Ganhou o presente de seu chefe, Geraldo, por sua postura exemplar.

Havia um código de conduta muito rígido, que era cobrado de todos os funcionários. Ao todo, eram 200 pessoas bem vestidas, bem remuneradas que ocupavam os quarteirões em volta da Lagoa dos Ipês. Área residencial reservada aos distintos cidadãos que ostentavam o crachá da Fábrica.

Eles eram a elite da capital, cujo orçamento era alvo da inveja de muitas cidades maiores. A capital que se formou em torno da Fábrica tinha uma população calma e pacata, quase silenciosa. Tudo era muito pacífico e parado.

Os poucos delitos, cometidos em geral por pessoas que não eram da cidade, eram tratados rapidamente pelo delegado José Antonio. Um homem de quase dois metros de altura, olhos castanhos, cabeça retangular e ombros largos, um sujeito bastante amedrontador. Era uma das poucas pessoas que podia frequentar a Fábrica sem ostentar o crachá. Ele preferia andar com sua estrela dourada e carinhosamente polida por sua esposa.

Naquela cidade não era comum ver as mulheres andando pelas ruas sem companhia ou seus uniformes de trabalho. As poucas que se arriscavam eram surpreendidas pelas patrulhas e levadas ou para a delegacia ou para a Zona Alta, região mais pobre da cidade que abrigava o resto da população.

A vida na Zona Alta era bem simples, mas a paz e o silêncio reinavam absolutos. A prefeitura levava à região todos os suprimentos necessários e era dona das casas onde as pessoas moravam, inclusive os 12 irmãos e a mãe de Otávio. Em troca, os moradores faziam alguns serviços para a prefeitura para a manutenção da cidade.

Não havia muita oferta de emprego no comércio, este, em geral, estava a serviço único e exclusivo dos funcionários da Fábrica ou de viajantes que passavam por lá. Pois eram os únicos em condições de frequentar os luxuosos restaurantes, cafés, teatro e cinema.

Quando Otávio sentia saudades, saía com seu Cadillac para uma visita à casa da mãe. Segundo as normas da Fábrica, os familiares não poderiam morar com ele ou frequentar os restaurantes e outros comércios da cidade pois não tinham crachás. Mas isto não importava, quando Otávio chegava à casa da mãe era recebido pelos irmãos com demonstrações de carinho tímidas mas sinceras.

Otávio pensava que, às vezes, a vida na Zona Alta passava devagar. As pessoas eram pacatas, as ruas silenciosas, não havia agitação e, mesmo com a vida simples, as pessoas pareciam não ligar. Pareciam conformadas e felizes.

A cidade, assim como a Fábrica, possuía suas regras. O serviço era realizado com uniformes cedidos pela prefeitura e o transporte era gratuito para ir e voltar do trabalho, tudo sustentado pelos impostos gerados pelo orgulho da região, que era a Fábrica, conhecida em muitos lugares do país por sua marca estampada naquele trem preto-reluzente, lindo, que apitava alto, quebrando o silêncio que, a cada dia, se espalhava pelo país. Parece que a paz reinaria finalmente onde antes havia tantos conflitos e mortes. Os ânimos da população mais pobre e revoltada se acalmavam, enquanto a Fábrica funcionava a todo vapor.

“O progresso se espalha pelo país.” dizia o anúncio da Fábrica, postado na entrada, logo depois dos portões, junto com o busto de seu fundador, Manoel, um premiado cientista que chegou de Portugal disposto a instalar sua tecnologia inovadora em benefício da sociedade. Foi tão bem-sucedido que conseguiu construir uma fábrica e ainda guardar muito dinheiro.

Os manuscritos, tratados e desenhos de Manoel eram relíquias acessíveis apenas aos mais altos escalões da Fábrica, aqueles funcionários com comprovada lealdade às normas e austeridade na observância de seus companheiros de trabalho. Tudo funcionava bem assim.

Havia um grupo destacado de trabalhadores que, embora não fossem da diretoria, eram os mais bem pagos, pois sua contribuição e serviços prestados eram a razão de ser da Fábrica. Este grupo morava em grandes e confortáveis casas, construídas no fundo da estrutura, ao lado de onde morava Manoel. Todos deste grupo eram seus discípulos e confidentes.

A Família de Manoel também morava na Fábrica, numa bela casa branca com portas e janelas azuis, e um grande painel de azulejos portugueses que retratavam com perfeição a obra “A Criação de Adão”, de Michelângelo. Ao lado, uma pesada porta de duas folhas que abriam juntas ao serem empurradas por maçanetas de ferro envernizado, trazidas do antigo laboratório em Portugal. A porta dava acesso a um imponente Hall que guardava lembranças de Manoel com a esposa, seu único e amado filho, e dos dias felizes em que ele não estava às voltas com seus algozes.

Otávio, embora estivesse confortável com sua vida, sentia que estava cada dia mais solitário, longe da família e morando sozinho, ele pensa ser hora de encontrar uma boa moça para se casar e ter seus próprios filhos. Mas havia algo mais a ser considerado, como constituir uma família se ele não gostasse de nenhuma mulher que trabalhasse na Fábrica? As normas eram rígidas e bastante claras, a Lagoa dos Ipês era a morada exclusiva dos funcionários, ninguém ali poderia estar sem um crachá, salvo os funcionários com uniformes da prefeitura.

Numa manhã de domingo, Otávio está em sua casa com a camisa listrada de bege e azul escuro, que ganhou de presente de Geraldo, mais uma vez por sua postura exemplar, e sente-se atraído por uma das mulheres que passam em frente a sua bela casa. Elas usam o uniforme da prefeitura. Entre todas, uma moça de cabelos escuros, compridos, baixinha, sorriso tímido e olhar pálido chama a atenção de Otávio. As garotas pareciam não ter muito ânimo, apenas seguiam em frente sem trocar uma só palavra.

Mas isso não importava. Otávio, entre uma tragada e outra de seu Hollywood, observa e armazena em sua mente privilegiada, detalhes daquela mulher que havia balançado seu coração. Ele acompanha a marcha constante e sem perturbações das moças até que elas somem de sua vista. Rapidamente ele monta em seu Cadillac e sai disposto a descobrir mais sobre as meninas. Nunca havia sentido isso antes, estava realmente interessado naquela mulher que sequer reparou em sua presença.

Pensava em como iria abordar as garotas mas, ao mesmo tempo, imaginava como seria se ela retribuísse o sentimento. Como faria para encontrá-la? Como poderia levá-la para casa? Estaria sendo Observado?

Ele continua o caminho aflito para encontrá-la. Dobra a esquina com aquele carro reluzente desde os primeiros raios de luz da manhã e vê as garotas seguindo em direção à escola. Ele acelera e o ronco do motor Cadillac de 8 cilindros suprime, por um instante, o canto repicado das Saíras de 7 Cores que descansam nos galhos aconchegantes dos ipês floridos. Parecia o cenário perfeito para um homem apaixonado e disposto a tudo, conquistar seu amor.

Otávio não consegue emparelhar o carro com as moças antes que elas entrassem pelo portal da escola. Ele estaciona seu carro e pensa em desistir, mas havia algo, uma vontade maior que o puxava para dentro da escola, que o faz desligar o Cadillac, descer e seguir aquelas mulheres.

Ainda sem saber ao certo se podia, ele sentiu que deveria e entrou pelo portal, acessando uma alameda de concreto cercada de árvores e grama bem cortada. Uma paisagem incrivelmente bem cuidada. Ele aperta o passo mas não corre, não quer ser percebido. As moças seguem em frente e pegam um desvio na alameda para seguir a um depósito que fica na parte de trás da escola.

Otávio continua seu caminho atrás das garotas e chega cada vez mais perto. Elas então adentram em um galpão grande com uma entrada pequena e sem janelas na frente. em volta do galpão, um alambrado meio enferrujado denuncia que ali não havia tanto zelo quanto no caminho para a escola.

Ele adianta ainda mais o passo e chega até a porta por onde entraram as mulheres. Quando olha para dentro do galpão, vê apenas um corredor mal iluminado que parece estar vazio. Nenhum barulho, sequer passos, podem ser ouvidos. Um arrepio sobe pelo seu corpo pois era um cenário distante do que seus olhos se acostumaram a ver: o verde das matas, o cinza do asfalto, o amarelo das faixas de trânsito impecavelmente pintadas, o colorido dos ipês e o bronze lustrado dos adornos da entrada da Fábrica.

Um passo adiante e ele está dentro do corredor pouco iluminado por lâmpadas incandescentes e fracas que davam a ideia do que seria um caminho. Seus ouvidos não eram capazes de captar o cantar dos pássaros ou das folhas se debatendo com os ventos. O Silêncio naquele corredor escuro era algo inimaginável naquela cidade tão perfeita que ele trabalhou tanto para transformar.

Por um instante ele pensa em voltar. Aquela vontade forte que o amor lhe impunha, empurra seu corpo corredor adentro e ele cria coragem para seguir em frente a passos lentos e silenciosos. O silêncio é cada vez mais profundo, Otávio só escuta o som de sua respiração, agora ofegante pelo esforço dos passos apressados na tentativa de encontrar as garotas, e o leve tocar de seus sapatos Stacy-Adams preto-reluzentes no chão de concreto.

Otávio caminha mais alguns passos e não consegue encontrar nenhuma porta lateral. Ele segue adiante em direção a uma lâmpada mais forte que está a uns 10 metros dentro do corredor. Silenciosamente ele continua a caminhada e começa a sentir os efeitos claustrofóbicos daquele corredor escuro.

– Como pode alguém entrar aqui se não há nada? Disse Otávio para ele mesmo.

Ele então aperta o ritmo dos passos e consegue alcançar a luz mais forte que ilumina um corredor perpendicular ao que estava. Otávio coça a cabeça, olha para trás e tem vontade de sair correndo pela saída do galpão com medo de estar sendo vigiado por patrulhas da Fábrica. Ele volta seu olhar para a lâmpada, olha para o caminho da direita e vê um corredor que parece não ter fim, tão mal iluminado quanto o que o levou até ali. Olha para a esquerda e vê outro trecho do corredor um pouco mais iluminado com uma esquina que pode ser percebida apesar das poucas luzes.

Depois de longos 2 minutos de indecisão entre direita, esquerda ou a saída para sua vida perfeita, ele segue pela esquerda em passos apressados. Sua respiração fica mais ofegante a cada passo, ele está apavorado com o lugar embora não consiga parar de explorar. Sente que sua vontade de seguir as moças é maior que sua lucidez.

Quando chega à esquina ele interrompe a caminhada e olha devagar pela quina da parede para enxergar o que há. Seus olho esquerdo arregalado é o primeiro a avistar mais um corredor a ser seguido. A Iluminação também é precária, contra isso não haveria como lutar. Ele observa a silhueta de uma porta ao final do corredor, parece algo menor que a moldura dos batentes, por isso, uma luz faz seu contorno.

Otávio segue em direção à porta e pare em frente a ela. Aproxima seu rosto na tentativa de escutar algo, encosta sua orelha esquerda no metal gelado daquela porta e tenta não fazer barulho com sua respiração suprimida. O silêncio do outro lado da porta parece absoluto, Otávio põe a mão na maçaneta, a esta altura não tão gelada quanto sua mão, segura com força e torce lentamente com medo que ela fizesse barulho.

Após um leve gemido das dobradiças de metal velhas mas ainda lubrificadas, a porta está aberta e Otávio se depara com um grande vestiário. Um local com ventilação forçada que dava mais oxigênio a seus pulmões já cansados de trabalhar com tão pouco ar puro. Ele respira fundo 4 vezes, retoma pouco do vigor que havia perdido naquela curta caminhada, seca o suor da testa que escorre para os olhos e para as orelhas.

As roupas confortáveis agora estavam encharcadas de suor provocado por calor e pavor. Ele limpa mais um pouco do suor com a manga da camisa e volta-se para os armários de metal cinza. Num exame mais minucioso das portas dos armários ele percebe que estão trancadas. O vestiário, mais bem iluminado que os corredores, tem mais lâmpadas no teto, um buraco da ventilação bem no centro e é dividido ao meio por um banco largo de madeira que um dia já foi azul, mas exibe uma pintura descascada e desgastada.

Otávio então cria coragem e começa a explorar o ambiente. Por duas vezes ele pergunta:

– Tem alguém aqui?

Sem resposta ele vasculha a área de chuveiros que fica reservada no vestiário e não encontra ninguém. Como não há mais para onde ir, Otávio sai do vestiário e anda depressa pelo corredor, vira a esquina e, em vez de voltar para a saída do galpão, segue rapidamente para o corredor profundo que não fora sua primeira escolha. Estava angustiado, sentia um forte aperto no peito com a certeza de que havia algo errado naquele lugar. Não era possível que 6 moças tivessem sumido daquele jeito.

Ele adentra mais no corredor escuro e chega a outra esquina que leva a uma nova porta. A mesma visão que teve do primeiro corredor está logo adiante. O coração disparado faz com que ele se apresse em abrir a porta que responde com um rápido, porém alto, gemido de suas dobradiças.

Otávio agora está diante de um escritório com um quadro de feltro verde à sua frente, onde há diversos recados pregados com alfinetes coloridos, do lado direito uma mulher com uniforme da prefeitura concentrada em sua máquina de escrever, copiando alguma coisa que está em folhas em sua mesa.

– Me desculpe, não sabia que havia alguém aqui. Disse Otávio.

– Você sabe onde estão as 6 mulheres que entraram aqui há pouco? Complementa.

A mulher segue teclando em sua velha máquina como se não estivesse escutando Otávio.

– Moça você está me escutando? Sabe para onde foram aquelas mulheres? Pergunta novamente.

A mulher continua entretida em seus afazeres até que Otávio senta-se em frente a ela numa das duas cadeiras de madeira à disposição na mesa. A moça para de datilografar e olha com um olhar sem profundidade para ele. Ela parece não estar percebendo sua angústia, mas ele insiste em perguntar onde estavam as garotas que haviam entrado ali. A garota da máquina de escrever, muito parecida com as outras, olha vagarosamente para Otávio, percorrendo seus olhos, nariz, boca, pescoço até se fixar em seu crachá. Ela aponta o dedo para o crachá e indica uma porta à direita. Otávio agradece e vira-se para a porta, a mulher da máquina sorri para ele e volta-se para a máquina com as mãos habilidosas e incansáveis a datilografar.

Otávio abre a porta e só então percebe que está dentro da Fábrica. Ele entra em uma espécie de laboratório, com paredes muito brancas e bastante iluminação, além de microscópios e bancadas impecavelmente limpas. Repara que existem muitos instrumentos que ele não compreende e segue em frente pelo laboratório que possui no fundo grandes janelas de vidro.

Ao chegar às grandes janelas, Otávio vê um grande pátio, impecavelmente limpo. Muito bem iluminado e muito semelhante a uma linha de montagem, porém não havia carros, caminhões, máquinas de costura, geladeiras ou qualquer outra coisa sendo fabricada ali.

Ele acha tudo aquilo muito confuso e misturando curiosidade com medo avança pelas escadas até chegar ao pátio embaixo. Com a leve sensação de que está sendo observado ele segue decidido a encontrar aquelas mulheres. O pátio é um grande retângulo com 4 corredores que levam a áreas distintas. Parece que todos ali estão de folga, pois era Domingo. Otávio está muito tenso e começa a sentir fome. Ele sobe novamente pelas escadas, passa pelo laboratório e quando chega ao escritório, já não encontra mais a moça da máquina de escrever.

Ele olha para o corredor, percebe que não há ninguém lá, e resolve olhar o que a moça estava digitando, talvez pudesse descobrir algo. Ao folhear os papéis percebe que são listas intermináveis de nomes. Muitos nomes, seguidos de sobrenomes, cidades de origem e, ao fim de cada folha, um carimbo com data e hora. Otávio não compreende o que está acontecendo, com medo, ele corre pelo corredor e vira à esquerda para sair do galpão.

Quando chega à porta, ele sai correndo em direção à alameda principal e vê de longe o delegado José Antonio vistoriando seu carro. Se esconde atrás de alguns arbustos e fica observando enquanto o delegado retira seus pertences do Cadillac e manda um dos policiais dirigi-lo até a delegacia.

Otávio sente um vazio dentro da barriga e sente vontade de desmaiar de tanto medo. Nunca poderia imaginar ter seu carro levado pelo delegado, sabia que teria que dar boas explicações para aquele homem astuto e austero. Otávio não sabia mentir, seria, provavelmente, o fim de tudo.

O delegado não faz menção de ir embora e o tempo começa a jogar contra Otávio, ele agora está escondido entre os arbustos, sujo, com medo e com muita fome. Durante horas o delegado fica em frente ao portal de entrada da escola, fumando charutos e conversando com duas pessoas que Otávio não conseguiu reconhecer.

Ele sente a barriga apertar de fome e sua enorme vontade de fumar começa a incomodá-lo. O suor verte de suas têmporas enquanto ele começa a sentir-se encurralado. Pensa mil maneiras de se desculpar por estar ali, mas parecia que nada seria convincente. Quando a noite chega, Otávio volta sorrateiramente para o galpão. Daria um jeito de se esconder por lá. Ele entra pela primeira porta, segue rapidamente para o laboratório e desce pelas escadas assustado.

Quando chega à linha de montagem, escolhe um dos corredores que tem uma placa dizendo: Entrada de Matéria-Prima. Ele corre para lá e busca um lugar para se abrigar e passar a noite. Sentia tanto medo de ser pego que acabou desistindo de procurar algo para comer. Deita-se sobre um banco azul, como os do vestiário, que ficava próximo à porta de entrada das matérias-primas, recosta sua cabeça encharcada de suor sobre suas mãos sobrepostas e dá um longo suspiro.

Um minuto depois ele se levanta assustado.

– E as garotas?

– Onde elas foram para? Não as vi sair. Diz Otávio em voz baixa.

Ele olha para os lados pois ainda está bastante assustado e decide deitar, agora, embaixo do banco, com medo de o delegado entrar no prédio e encontrá-lo. Cansado, Otávio pega no sono.

No dia seguinte, acorda assustado com o apito do trem que parece cada vez mais próximo. Ele rapidamente se levanta e tenta encontrar uma brecha para olhar e ver o que está para acontecer. O apito mostra que o trem está chegando à Fábrica e Otávio corre para longe da porta, buscando outro lugar para se esconder.

Ele olha para pela janela de vidro do laboratório e corre para lá, subindo as escadas com uma incrível velocidade. Ele acredita que o crachá pode salvá-lo nesta hora e decide arriscar ficar junto à garota da máquina de escrever.

Ele passa pelo laboratório e encontra a mulher datilografando listas de nomes, parecia que estava cadastrando a população do país inteiro, de tanto que datilografava, mas ela permanece sem reparar em Otávio, apenas concentrada no que faz.

Ele ouve então a abertura da porta de entrada de matéria-prima, que fazia um barulho agudo, alto e irritante. Decide agir como se estivesse trabalhando, apesar de sua roupa encharcada de suor e sua fraqueza de fome e medo, age como se estivesse supervisionando o trabalho, lá do laboratório.

Corre para a janela e observa a movimentação de um grande número de pessoas que tomam suas posições na linha de montagem da Fábrica. Eram todas uniformizadas com o crachá, mas Otávio nunca as vira. Seriam de outra unidade? Era um uniforme sobreposto às roupas, como o avental de um médico, cada equipe se reunia em torno de uma marcação no chão.

As equipes eram formadas por duas pessoas, uma segurava panos e uma bacia com água, a outra segurava uma espécie de martelo e um pino fino e comprido com uma cabeça achatada, além de uma cinta de couro na cabeça com uma lâmpada acoplada a um disco de metal.

Ainda confuso, Otávio tentava identificar o que poderia estar acontecendo, quando um monte de macas começa a entrar na Fábrica. Cada maca transportava uma pessoa desacordada que era posicionada entre as duas pessoas, respeitando cada marcação no chão.

Era tudo muito simultâneo e bem coordenado, Otávio estava assustado e admirado ao mesmo tempo, ele, finalmente veria o fruto do seu trabalho. Após o posicionamento preciso das macas, o médico colocava o pino acima do olho direito e angulava com precisão, para as 5 batidas sempre iguais do martelo. Então uma leve girada no sentido horário e o pino era retirado. A segunda pessoa da equipe rapidamente colocava um pano sobre o ferimento para estancar o sangue, lavava as mãos e, enquanto o maqueiro retirava a pessoa para que outra maca fosse trazida, a equipe posicionava-se para a nova intervenção.

Otávio observa incrédulo o que a Fábrica produzia. Ele percebeu que a Fábrica estava transformando o dia-a-dia das cidades produzindo a mudança de comportamento das pessoas. Por isso ele jamais poderia ter encontrado o caminho para a linha de produção, as regras eram claras. O segredo industrial guardado a sete chaves.

Enquanto um filme passa pela sua cabeça, o procedimento frenético não leva mais que 5 minutos para cada paciente, entre entrada e saída de maca. As pessoas eram levadas de volta ao Trem para voltarem às suas cidades de origem.

Apavorado, Otávio abre a porta e passa pelo escritório, dando de cara com José Antonio e Geraldo. Ele se assusta, chega a ficar paralisado como se o sangue sumisse de seu corpo e quase desmaia. Geraldo põe as mãos sobre seus ombros e o leva de volta à vitrine da Fábrica.

– Este é o progresso Otávio. Vamos construir um mundo onde os desordeiros não tem vez. Não gosta do silêncio das noites e da cantoria dos pássaros das manhãs? Tudo é fruto do que fazemos na Fábrica! Você fez um grande trabalho. Disse Geraldo.

Otávio sente a secura na boca e o suor escorrer por todo o seu corpo, ele sente o desfalecimento como se sua alma estivesse para sair de lá. Lembra das garotas de programa, do seu Cadillac, da sua bela casa e pensa em sua família. Enquanto um filme passa por sua mente mais uma vez, ele vê na linha de produção da Fábrica aquela garota por quem se apaixonou no dia anterior. Ela estava ainda naquele uniforme, cuidando do sangue que caiu, limpando o chão da Fábrica para a próxima leva de matéria-prima.

– O país inteiro está comprando nossos serviços. Aperfeiçoamos aquilo que vai transformar o mundo num lugar tranquilo de se viver, tudo ficará sob controle Otávio. Geraldo complementa orgulhoso.

– Sabe Otávio, Lobotomia é o remédio adequado para quem não segue as regras, para os curiosos e para quem não tem o crachá. Exclama José Antonio enquanto Geraldo arranca da roupa de Otávio o Crachá.

Otávio sente o corpo cair quando José Antonio aplica-lhe uma injeção que o faz desmaiar.

Daquele dia em diante, Geraldo desfilava empolgado pelas ruas no belo Cadillac Eldorado ano 1953, prestando atenção ao canto dos pássaros e à beleza dos ipês da lagoa. A única coisa que agradava Geraldo mais que passear pelas ruas tranquilas e pacatas, era buzinar e acenar para o jardineiro com aquela bela camisa listrada de bege e azul escuro sob o uniforme da prefeitura.

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FIM
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Esta é uma Obra de Ficção qualquer semelhança de nomes, acontecimentos e lugares etc é mera coincidência. O Conteúdo Deste Post Pertence ao Autor e é Protegido pela Lei de Direitos Autorais

O Reflexo do Demônio

Contos de Terror Inéditos - O Reflexo do Demônio

Contos de Terror Inéditos – O Reflexo do Demônio

Muitas histórias, momentos, sentimentos e sofrimentos podem se esconder no reflexo de um espelho.

 

Sara era uma mulher linda, com corpo deslumbrante e talentos peculiares. Era 1979 e o sucesso alcançado fazendo programas com homens da alta sociedade lhe rendeu boas histórias, muito dinheiro e incontáveis segredos do poder.

Mudou-se da capital do país para uma cidade pacata para viver de maneira tranquila, longe do seu passado e das ameaças assustadoras. A casa possuía uma arquitetura colonial e a aparência bem cuidada. Não dava a entender que era um imóvel construído há tanto tempo.

Um sobrado de esquina com sacada para a rua principal, ainda cercada de terrenos vazios. O belo jardim em frente a casa guardava o Landau 1979 azul, com o qual Sara desfilava sua beleza estonteante seduzindo os olhares da população, encantados com tanta desenvoltura.

Um passado conturbado e lembranças trágicas fizeram Sara deixar os velhos hábitos. Ela viveu os 3 primeiros meses da nova vida com um pouco do dinheiro que possuía e começou a procurar uma atividade com a qual pudesse sustentar seus gostos caros. Um dia, andando pela bela mansão que comprara, decidiu abrir um negócio.

Pensou que uma boa reforma poderia dar-lhe a chance de abrir um excelente espaço para um Ateliê de costura fina. Faria vestidos de noiva, unindo o bom gosto adquirido nas altas rodas e seu talento natural aperfeiçoado pela educação que teve em um colégio interno que frequentou em Minas Gerais, antes de sair de casa logo que sua irmã mais nova morreu enforcada.

O porão, que ficava trancado com um antigo cadeado enferrujado, acessível pela entrada lateral do jardim, foi reformado por Aguinaldo. Um pedreiro muito simples mas caprichoso, que Sara contratara. Após negociar um bom preço ela supervisiona o trabalho para que fique perfeito.

Sara contrata, novamente por um bom preço, garçons e uma cozinheira e promove um evento de inauguração de seu Ateliê. Finalmente as pessoas ricas das redondezas conheceriam por dentro aquele jardim maravilhoso. Rapidamente Sara consegue as melhores clientes da região e estabelece sua marca de alta costura para noivas.

No ano de 1982 os negócios vão bem para Sara até uma cliente misteriosa chegar ao seu Ateliê. Uma mulher de beleza ainda mais estonteante que Sara, o que lhe causou certa inveja. Paula, a nova cliente, possuía medidas perfeitas e um certo ar de realeza que Sara, apesar de todo o dinheiro e conhecimento, nunca teve.

Ela não conseguia disfarçar um certo ar rude, depois de tantos anos nas ruas se prostituindo por nada. Sara se lembra de onde vivia com os poucos pertences que conseguiu, entre eles um espelho de corpo inteiro, que levou do último lugar ruim onde vivera, que sempre a acompanhava onde quer que fosse morar.

Paula acerta os detalhes do vestido com Sara. Além da beleza, vaidade e educação, outra coisa que chamou a atenção de Sara é que Paula era diferente das outras, parecia tão decidida estava sempre sozinha em todos os encontros no Ateliê, parecia não ter sequer uma família.

Um mês depois, Paula volta ao ateliê para fazer a primeira prova do vestido completo. Naquele porão deslumbrante, o espelho antigo de corpo inteiro, de madeira escura com entalhes muito bem feitos e detalhados, mostrou à Paula a imagem maravilhosa de uma das noivas mais lindas que um espelho poderia refletir.

Sara nunca se aproximava das clientes para não aparecer no espelho. Deixava a noiva contrastar solene com o jardim que refletia no espelho, formando uma composição digna de cinema. Paula insistiu para que Sara se aproximasse, mas ela recusou. Justificando que o momento era somente da noiva e do espelho mágico, como ela gostava de se referir ao objeto.

Paula não insiste e Sara observa com atenção, um pouco desconcertada, as medidas tão perfeitas daquela mulher. Não havia o que modificar, era como se as proporções de um corpo ideal estivessem diante de seus olhos. Sara não se conformava e uma certa inveja tomava conta de sua mente.

Paula sai da frente do espelho e ficam em frente à Sara. Pergunta-lhe o que ela achava. Sara logo respondeu que estava perfeito. Paula olha no fundo dos olhos azuis de Sara e completa: Está sob medida para um dia de glória.

Sara sente um arrepio nos braços e se assusta quando os olhos de Paula se tornam negros e opacos. Seu rosto fica pálido e afundado. Ela sorri mostrando dentes apodrecidos e pontiagudos.

Sara, arrepiada, não consegue esboçar reação, enquanto Paula põe as mãos geladas e cinzas com dedos compridos e unhas pretas longas, em seus ombros. Um forte cheiro de carne apodrecida toma conta do Ateliê de Sara enquanto os cabelos de Paula se tornam ralos e brancos e seu rosto vai envelhecendo rapidamente.

O cheiro forte de corpos em decomposição fica insuportável mas Sara não consegue se mover. As portas do porão se fecham numa batida dura e forte. As flores do lindo jardim secam como num passe de mágica macabra. O Vestido vai se decompondo como se estivesse em um corpo enterrado.

Sara olha para baixo, observando o vestido se desfazer, enquanto Paula se transforma num corpo em decomposição bem em sua frente. A pele acinzentada, os olhos negros e fundos e a pele quebradiça de um cadáver velho agora tem vermes saindo de suas entranhas.

O cheiro de carne podre toma conta de todo o ambiente e Paula empurra Sara para a frente do espelho com muita força. Sara cai no chão batendo a cabeça. Ao tentar se levantar, passa a mão sobre testa e percebe que está ferida e sangrando. Ela não quer olhar para a frente, com muito medo do que veria no espelho.

Bem devagar, Sara, com as mão cobrindo a visão, levanta a cabeça. Quando está cara a cara com o espelho ela descobre os olhos e o que o espelho mostra é seu maior pesadelo. Ela vê a imagem em que Paula se transformara bem na sua frente. Paula nada mais era que seu próprio reflexo ao vivo, ela pensa.

Enquanto tenta se levantar, Sara percebe uma mão muito forte e suja segurando-a pelos ombros, empurrando-a contra o chão. Ela olha para o espelho novamente e vê Aguinaldo, o pedreiro que havia reformado o seu Ateliê. Desesperada, Sara grita o mais alto que pode pedindo socorro.

Logo ela vê no reflexo do espelho também a imagem de sua irmã, com o rosto roxo e a corda apertada e pendurada no pescoço. Vê também o jardineiro Chico, que cuidava de seu jardim, a equipe de garçons com facas espetadas no coração e Luzia, a cozinheira, segurando sua própria cabeça, pois tinha morrido decapitada. Todos estavam mortos!

Suas almas pareciam estar dentro do espelho, com uma aparência horrível de corpos em decomposição exalando o forte cheiro de carniça.

Sara olha para trás mas não vê nada, quando volta sua visão para o espelho vê aqueles corpos todos em sua volta segurando-a no chão em frente ao espelho. Aqueles olhares macabros demonstravam uma raiva incontrolável sobre Sara. Aquelas almas dentro do espelho estavam sedentas de morte. No espelho, Sara não era a mulher linda de olhos azuis, mas sim aquela imagem cadavérica em que Paula se transformara.

De repente, Sara escuta passos que parecem cascos batendo no assoalho de madeira envernizado que ela cuidara com tanto carinho. Pelo espelho ela vê uma sombra caminhando com uma capa e chifres grossos que eram perceptíveis em meio à pouca iluminação. No reflexo do espelho, bem atrás dela, a sombra se faz cada vez maior enquanto o barulho dos passos se aproxima.

A respiração forte daquele ser aumentava o pavor de Sara e acelerava as batidas de seu coração. Um forte cheiro de carne queimada começa a sufocá-la enquanto o ser se revela à meia-luz no reflexo do espelho. Aquele monstro demoníaco, de corpo disforme e tamanho descomunal, puxa os cabelos de Sara levantando sua cabeça com facilidade.

Era de uma força sobrenatural!

Ele então diz a Sara que veio buscar o que ela lhe devia. Ela começa a chorar e sente seu corpo se decompor como o reflexo no espelho sugere, enquanto o ser reclama as almas que Sara aprisionara dentro do espelho. Ela logo se lembra dos tempos de prostituição e seu nome de guerra, Paula! Era capaz de qualquer coisa para sair daquela vida maldita na boca do lixo.

O reflexo do espelho era o demônio cobrando sua parte no trato. Da pior maneira, Sara descobre que podia enganar a todos menos ao demônio. Ela matou todas aquelas pessoas e aprisionou suas almas no espelho mágico. Enquanto houvesse energia vital naquelas almas, Sara viveria a plenitude de sua beleza, conforme o pacto que fez com o demônio.

O sucesso, a beleza eterna e o talento tinham um preço. Mas Sara nunca cumpriu a sua parte, matando suas noivas. Não haveria perdão para a quebra de acordo.

O demônio sai do espelho com seu corpo peludo, pernas de boi, cabeça de homem e chifres que escorriam sangue fresco. Com suas mãos poderosas, negras e unhas compridas como garras, segura Sara pelo pescoço e a joga dentro do espelho.

Sara agora vê seu Ateliê, lindo como sempre, e o jardim florido de dentro do espelho. O demônio pega uma corrente que traz em sua cintura e quebra o espelho aprisionando Sara para sempre, junto com suas vítimas sedentas por vingança.

 

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Gritos Infernais

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Contos de Terror Inéditos – Gritos Infernais

Somente a Morte Poderia Livrar Larissa Daqueles Gritos Infernais.

 

Larissa não conseguia conter a felicidade por estar naquela praia paradisíaca. Olhava encantada para os paredões de pedras calcárias e aquela areia branca que quase cegava os olhos ao refletir os raios do sol escaldante daquele dia 19 de agosto.

Contos de Terror Inéditos - Gritos Infernais

A praia de Navagio, costa de Zakynthos, nas Ilhas Jônicas da Grécia era considerada uma das mais lindas por Larissa, profunda conhecedora de praias pelo mundo. Além da beleza natural, a praia possuía um atrativo curioso e inusitado. Um navio naufragado bem em cima das areias finas e quentes. O Navio repousava como uma escultura de ferrugem contrastando fortemente com as encostas e a praia, tão claras.

O guia, a pedido de Larissa, conta a história do Navio Panagiotis, construído em 1937, na Escócia e naufragado em 1980. Segundo a história contada pelo guia, o barco naufragou em uma perseguição da Guarda Costeira Grega, quando transportava contrabando. Larissa já havia pesquisado sobre a história e tentou tirar mais informações do guia, perguntando a ele se havia certeza sobre o destino do navio. Não obteve sucesso.

Contos de Terror Inéditos - Gritos Infernais

Larissa finalmente pisa a terra firme. Em frente aquela escultura de lata enferrujada, sente um frio subindo pelo corpo, mas decide explorar o local e anda em volta do barco, olhando pelos buracos abertos no casco. uma mistura de suspense e curiosidade tomam conta da garota que a cada olhada pelas crateras do casco enferrujado, pensa ter visto movimentos lá dentro.

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O guia começa a organizar a turma de turistas para uma breve explicação de como será o passeio até o topo da encosta rochosa. Larissa é uma das primeiras a dizer que vai subir até o topo do paredão, enquanto boa parte das pessoas prefere nadar na praia e admirar a escultura de ferrugem repousando algo enterrada na areia.

Na parte de trás do barco, Larissa observa o estrago feito pelo tempo e tenta imaginar o que havia acontecido com a tripulação, já que o guia não lhe deu maiores detalhes.

Ela entra pelo convés quase coberto de areia e sente um vento em sua frente. Se assusta e dá um passo atrás. Faz um silêncio por um instante e tenta identificar se há mais alguém lá. A esta altura ela apenas consegue ouvir os outros turistas rindo e conversando fora do barco, enquanto ela está dentro dos destroços observando.

Larissa começa a tirar suas fotos primorosas. Motivo de seu orgulho, as imagens que faz são um retrato fiel de suas percepções de cada viagem. Nesta, não seria diferente e ela mescla sua visão daquele paraíso entre panorâmicas e selfies.

De repente, Larissa escuta um grito estridente. Ela corre para fora do barco assustada e olha em volta. Nada diferente! Os turistas parecem não ter ouvido o grito e todos parecem bem.

Mais uma vez aquele grito estridente vem ao ouvido de Larissa e ela se vira para outro lado e corre em torno do barco. Mais uma vez não há nada lá. ela começa a achar que alguém está brincando com ela.

Agora, ela ouve os mesmos gritos parecendo vir de três direções diferentes. Ela corre mais uma vez em direção aos turistas e, ofegante, resolve perguntar ao guia se ele ouviu os gritos. O guia responde que não, mirando os olhos arregalados de Larissa, em frente aos turistas surpresos com seu súbito desespero.

Larissa olha em volta mais uma vez e tudo que vê são turistas dispersando os olhares de sua direção e retomando suas atividades, suas fotos e seus comentários sobre a beleza do lugar.

Logo o guia chama a turma para começar a subir o penhasco enquanto é cedo, para que ao pôr do sol estejam à beira-mar novamente. Larissa, ainda assustada e pensando sobre os gritos pavorosos que ouvira, segue o guia com o pequeno grupo que subiria para ver a praia de cima.

Durante a trilha para subir as encostas Larissa se assusta por diversas vezes com as vozes que parecem falar aos seus ouvidos algo muito estranho que ela não identifica. As vozes parecem dizer coisas incompreensíveis. Ela segue o caminho apavorada com aquelas vozes e sussurros que parecem acompanhá-la. Continua a trilha em silêncio enquanto os outros conversam sobre as belezas da vista, indiferentes ao que se passa com Larissa.

Chegando ao topo, todos começam a contemplar as belezas do lugar e Larissa, há pouco, sem as vozes em sua cabeça, relaxa e resolve tirar algumas fotos. Ela escolhe o melhor ângulo e resolve armar seu equipamento para uma boa foto do barco.

Depois de algumas fotos ela resolve olhar o resultado. Larissa logo percebe que há algo de errado em uma das fotos, pois existe uma sobra incomum em todos os takes que mostram o convés meio enterrado na areia. Ela seleciona a mais nítida daquela série de fotos e dá um zoom ao máximo possível, ainda preservando a nitidez.

Contos de Terror Inéditos - Gritos Infernais

Ao ver aquela projeção de sombra de um ser demoníaco alado, Larissa se assusta e suspira, andando para trás. Tropeça em um dos turistas que reclama. Ela logo aponta para a câmera, para que ele olhe a foto. Está pálida e sem voz. O Turista vai em direção à câmera e começa a olhar a foto sem entender o que estava acontecendo.

Os sussurros retornam à mente de Larissa e ela coloca as mãos em sua cabeça como que querendo tirar de dentro aquelas vozes assustadoras. Ela começa a caminhar para trás assustando os outros turistas que subiram a encosta. O rapaz que olhava a foto na câmera fica paralisado quando descobre a sombra demoníaca que aparece na foto, sobre a qual Larissa não conseguira contar.

Enquanto o turista volta seu olhar para o navio lá embaixo na praia, ele vê a sombra ao vivo cobrindo um pequeno grupo de turistas que ficou lá embaixo. Ele grita aos que estão em cima do paredão de pedra e aponta para a praia. O grupo, juntamente com o guia, olha a praia e grita aos turistas sobre o perigo iminente, enquanto Larissa começa a gritar desesperadamente para que as vozes a deixem em paz.

A sombra cobre os turistas na praia que começam a gritar desesperadamente por socorro. Eles correm em direções variadas enquanto sombras saem debaixo da areia branca e fina puxando os turistas para debaixo, sob os olhares incrédulos e gritos desesperados dos turistas em cima da colina.

O guia, muito assustado não sabe como agir e pede que todos fiquem juntos pois, talvez, estivessem seguros longe da praia. A sombra alada demoníaca voa em círculos sobre as pessoas desesperadas que vão sendo puxadas para baixo da areia uma a uma. Aquelas mãos eram enormes pareciam de uma força descomunal. Era como se entidades estivessem sob a areia engolindo as pessoas em questão de segundos, sem chance de defesa.

À medida que as pessoas desapareciam, mais o navio afundava na areia. Parecia que a praia consumiria o número de vidas suficientes para cobrir totalmente o navio. Larissa, após gritar o mais alto que podia, se viu livre dos sussurros apavorantes e, quase sem voz, olha em volta e vê seus companheiros atônitos olhando para o navio afundando na areia.

Ela se aproxima do penhasco e vê a areia engolindo mais um pedaço do Panagiotis. Aquela sombra alada pairava em volta do navio como que se certificando que não restaria nenhuma vida sobre a areia.

Um silêncio profundo se fez quando aquela sombra alada mergulhou novamente na areia. Os turistas e o guia se entreolhavam enquanto Larissa mantinha os olhos fixos naquela embarcação. Ela não conseguia gritar e não pode avisar aos outros quando um grupo de sombras saiu das areias e começou a rastejar.

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A grande sombra alada se ergueu, saindo da cabine do Panagiotis em meio a um redemoinho de areia que foi crescendo em volume e revelou um grande número de corpos em decomposição debaixo da areia, inclusive aqueles turistas que acabaram de ser puxados para baixo.

Larissa acena aos os companheiros de passeio para visualizar aquela cena terrível. Todos se aproximam da encosta de pedra e ficam aterrorizados quando vêem milhares de sombras saindo debaixo do redemoinho de areia. Aos montes, aquelas almas saiam daqueles corpos apodrecidos, escondidos debaixo da areia branca e limpa.

O terror do momento contrastava com a beleza do dia que, a esta hora, não tinha mais o barulho do mar. A única coisa que se ouvia era uma horda de entidades demoníacas rastejando pela areia e gritando agudamente e muito alto.

Agora todos conseguiam ouvir os gritos que Larissa ouvira ainda na chegada à praia. Aqueles gritos infernais se aproximavam à medida que as entidades e as sombras sem pernas, apenas com o dorso e um rosto de caveira, avançavam em direção à encosta de pedra calcária.

Os sobreviventes começam a buscar maneiras de se proteger quando aquela horda de demônios começa a subir a encosta rochosa com velocidade incrível. Os gritos agudos das entidades aumentavam de volume e agora dividiam espaço com os gritos apavorados dos turistas que assistiam, incrédulos e indefesos, à escalada do terror.

Larissa se afasta da beira do precipício e senta em uma pedra com as mãos na cabeça tentando não ouvir todos aqueles gritos infernais, enquanto as sombras alcançam os turistas à beira do penhasco e em questão de segundos puxam todos para a morte.

Com uma força e velocidade incontrolável, as sombras puxam aqueles turistas arrastando-os pela parede de pedra calcária, cobrindo de sangue o caminho por onde rastejavam até chegar ao barco. Então, os corpos esfolados dos turistas que ainda estavam com vida eram puxados para baixo da areia, assim como os outros.

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Os gritos agudos só pararam quando todos os corpos foram levados para dentro da areia que cobria mais um pouco do navio. Larissa logo percebeu que não havia saída, aquelas entidades não iriam parar de matar enquanto não escondessem o navio por completo.

Estava claro para ela que aquela caçada de 1980 não havia acabado. Ela se aproxima novamente do penhasco e escuta o início daqueles gritos infernais outra vez. Agora, em maior número, eles viriam atrás dela. Larissa pensa que não conseguirá escapar. Ela olha para o mar e para a parede rochosa manchada com o sangue de seus companheiros de viagem.

Olha para trás e não vê nada além de pedras calcárias, mar e areia. Os gritos se aproximam, cada vez mais altos e com muita velocidade. Larissa corre desesperada em direção à borda da colina e salta para a morte em direção ao mar, antes que as entidades a pudessem pegar. O corpo de Larissa não demora a encontrar as pedras à beira do paredão e seu sangue se espalha pelas águas salgadas.

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As entidades gritam ainda mais alto e voltam rapidamente para o fundo da areia. Enquanto isso, o sol se põe no horizonte, dando ares de normalidade à praia, que espera serena o novo grupo de turistas.

 

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Realidade Mortal

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Contos de Terror Inéditos – Realidade Mortal

Aquilo que seus olhos vêem é real? Às vezes a realidade vai muito além daquilo que você consegue ver ou imaginar.

 

Caroline compra um par de óculos de realidade virtual em uma feira de artigos populares. Era uma boa oportunidade, os óculos vinham acompanhados de um cartão de memória compatível com o celular de Caroline.

Ela encaixa o cartão de memória e verifica rapidamente que o cartão funciona. Caroline também repara que há um arquivo dentro do cartão. Ela faz o pagamento e corre para casa para testar o equipamento com algum vídeo interessante que, certamente, encontrará no Youtube.

Quando chega em casa, certifica-se de que está sozinha. Não gostaria que ninguém a visse interagindo com aqueles óculos esquisitos. Caroline senta-se no sofá e resolve abrir o arquivo que sabia existir no cartão de memória. Ela encaixa o cartão e liga o celular. Surpresa, percebe que o filme no cartão de memória tem um título um pouco estranho: “Dark Desert Corridor – Experience3D”. Caroline encaixa o celular nos óculos de realidade virtual e, para dar um ar de mais real, coloca seus potentes fones de ouvido. Isso, dentro de um ambiente em que está sozinha, deixará a experiência ainda mais emocionante.

A garota dá play no vídeo e coloca os óculos. O começo do vídeo é escuro e com sons estranhos. De repente, sons de respiração ofegante, o vídeo segue e a garota mexe a cabeça verificando se existem outros elementos. Caroline vê então uma imagem ainda muito escura que demonstra alguns movimentos que não podem ser identificados. Um som misterioso começa ao fundo como um background para filmes de mistério.

Algum tempo de tela preta com música de mistério e Caroline começa a ficar altamente concentrada no ritmo monótono da música e do filme. Ela acaba se esquecendo do que ocorre ao seu redor. Então, a imagem escura inicia o clareamento gradual e começa a desvendar o misterioso conteúdo que parecia se mover.

De repente, a música se altera com uma subida de tom dramática e então um corredor se mostra à sua frente. A qualidade da imagem faz com que pareça real aquele corredor. A Música ajuda a compor aquele ambiente misterioso. Logo ela imagina que está fazendo o tour pelo corredor como se estivesse flutuando. Não sente seus pés tocarem o chão, enquanto a imagem mostra um fundo preto com as paredes iluminadas em volta como se fosse a luz de uma tocha.

Quanto mais a imagem vai para dentro do que parece um corredor infinito, mais a música entra na mente de Caroline e ela sente que está conectada cada vez mais ao corredor sujo e escuro. A imagem, através dos óculos, parece ser tão real que a garota começa a sentir falta de ar e claustrofobia. A imagem aparece de forma mais acelerada e Caroline encosta-se no sofá com a respiração apressada.

A imagem aumenta sua velocidade ainda mais e o movimento acaba por distorcer a mudança sutil que as paredes sofreram. Quando Caroline sente a falta de ar tomando conta de seu corpo, percebe que está apertando-se contra o sofá na tentativa de frear o movimento para dentro do corredor. Neste momento de angústia, a música novamente atinge um tom mais macabro e o movimento diminui repentinamente de velocidade. Essas oscilações são sempre acompanhadas de mudanças no som de fundo que parece um filme preparado para amedrontar.

Caroline percebe que as paredes agora são formadas por milhões de caveiras. Quem quer que tenha feito aquele vídeo, queria mesmo assustar. Quando viu os ossos sobre os quais flutuava, seu corpo se arrepiou inteiro. Era movida, a esta altura, apenas por sua vontade de sair daquele corredor. Ao mesmo tempo que desejava parar de assistir, sentia suas mãos coladas ao corpo sem conseguir o simples movimento de tirar os óculos de realidade virtual.

A música muda repentinamente para um som estranho de gotas caindo em uma poça de água, enquanto a viagem se mantinha em velocidade lenta para dentro do corredor de caveiras. Quanto mais adentrava o corredor mais alto ficava o som das gotas caindo. De repente, Caroline escuta um barulho forte de respiração, o mesmo que ouvira no início do vídeo. Ela põe suas mãos sobre o peito e aperta seu coração num gesto de angústia.

Aquele coração disparado parece que vai saltar do peito cada vez que a respiração dentro da caverna fica mais alta e assustadora. Caroline está tão tensa que não sabe se a respiração é sua ou de alguém dentro do corredor. Junto com o barulho da respiração, os pingos na poça fazem um som cada vez mais alto, acompanhados das batidas desesperadas do coração de Caroline. A angústia toma conta da garota que não consegue parar de ver o vídeo, como se estivesse vivendo aquela realidade mostrada nos óculos.

Uma leve curva à direita dentro do corredor e Caroline dá um salto para trás com o susto que levou. Ela vê uma pessoa de costas, ajoelhada sobre uma poça de sangue. Quando se aproxima, Caroline percebe que o barulho de gotas caindo é o sangue daquela pessoa, escorrendo para dentro da poça formada embaixo dela.

Caroline segura o grito para não fazer barulho, porém não consegue controlar o ruído de seus passos dentro do corredor, como se ela agora, em vez de flutuar, estivesse caminhando sobre aquela trilha de ossos. Quando ouve o barulho dos ossos quebrando, a criatura olha para trás em um movimento muito rápido e ágil. Caroline se assusta e quase desmaia quando vê que é uma pessoa cujo corpo exibe sangue e músculos. Não há pele sobre a criatura, ou pessoa, Caroline não consegue entender bem o que é. Apenas tenta correr, mas não consegue gritar. Aquela criatura que parecia real, começa a correr atrás de Caroline que não consegue se distanciar.

Quando a criatura ameaça pular, Caroline faz um gesto tentando se proteger no sofá. Neste momento, ela vê seus braços tentando protegê-la dentro do filme. Caroline não consegue entender nem dizer o que é real ou realidade virtual. Ela tenta arrancar os óculos, porém é impedida pela criatura que agora está grudada em suas costas. Caroline sente o sangue corrente da criatura em seu corpo e percebe que os braços ensanguentados começam a se enrolar em seu pescoço, enquanto a língua gigante da criatura passa por seu rosto.

Caroline tenta gritar e o som não sai. Um rápido movimento para se livrar daqueles braços e um esforço gigantesco, faz com que ela dispare numa corrida desesperada pelo corredor. Estaria ela vivendo realmente a situação dentro do vídeo? Enquanto Caroline corre, ainda sem entender bem o que estava acontecendo, percebe que o som das gotas pingando e da respiração vão ficando mais distantes, o que alivia sua tensão. Caroline relaxa no sofá.

A imagem segue em movimento e Caroline escuta um barulho. Percebe clarões dentro do corredor que iluminam ainda mais as caveiras. Quando a luz fica mais forte, Caroline consegue ver ratos passeando pelas cavidades oculares e bocas escancaradas daqueles esqueletos desmontados, espalhados pelo chão e paredes.

A Viagem por dentro do corredor parece estar chegando ao fim, quando Caroline começa a sentir um calor no rosto que não conhece a origem. Ela passa sua mão sobre os óculos e percebe que eles estão frios, como era de se esperar.

Quanto mais se aproxima da origem daquele som e daqueles clarões, Caroline sente o calor ficar cada vez mais intenso, como se estivesse se aproximando de uma fogueira. A velocidade do vídeo aumenta e ela se vê em frente a uma criatura. Pela silhueta, parecia um homem grande e alto, que exibia facas grandes e afiadas, cobertas de um sangue fresco e brilhante, além de uma chama constante que ele segura.

O cheiro forte de carne queimada começa a invadir o nariz de Caroline enquanto o calor se faz ainda mais intenso. Ela tenta se afastar em silêncio, quando uma mão quente e ensanguentada pousa sobre seu ombro direito. Ao que Caroline sente o calor daquela mão solta um grito de horror, chamando imediatamente a atenção daquele homem no corredor. O homem se vira para Caroline, aponta um maçarico e abre a vazão do gás incendiando o corpo da garota e cegando-a imediatamente.

A dor que Caroline sente é insuportável. Ela grita e se debate sem conseguir enxergar até que, finalmente, arranca os óculos de sua cabeça. Quando ela percebe que está livre dos óculos, sente que a dor permanece intensa e ardente. Ela não consegue ver nada, a dor e ardência em seus olhos é insuportável. Ela grita de desespero e percebe que uma imagem começa a surgir em sua cabeça em meio a tanta dor. A imagem que aparece é de seu corpo em chamas, se contorcendo no chão do corredor.

A criatura ensanguentada começa a se alimentar do corpo de Caroline enquanto o homem troca o maçarico pelas facas que servirão para cortar o corpo da garota. A cada pedaço que é arrancado de seu corpo, Caroline sente que suas energias vão embora. Sua alma agora é espectadora de sua própria agonia, naquela realidade mortal.

 

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Eles Ainda Têm Fome

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Contos de Terror Inéditos – Eles Ainda Têm fome

A leitura daquelas malditas palavras faria levantar das tumbas uma maldade que eles nunca poderiam conter.

Dia 18 de novembro de 2012, domingo.

Carlos e dois amigos, Bola e Gilberto, foram passar férias pelo Norte do Brasil. Eram amigos de longa data e comemoravam seus 21 anos, em uma viagem de 21 dias aproveitando as belezas naturais brasileiras, tendo como ponto de partida Belém do Pará.

Ao chegarem ao hotel em Belém, conheceram Evaldo, um Guia da região. Aquele guia atiçou a curiosidade de Bola a respeito da famosa história do garimpo de Serra Pelada em Curionópolis (PA). Com seu inseparável iPad, Bola buscou referências e confirmou algumas histórias que ouvira de Evaldo e conheceu outras. Correu para mostrar sua pesquisa a Carlos e Gilberto sobre as lendas da região.

Evaldo convidou os amigos para uma expedição que partiria dali a dois dias. Bola incentivou os amigos a participarem. Eles concordaram e foram ao centro da cidade em busca de recursos para acampar.

O Guia, que conhecia bem a região por já ter levado outras pessoas para lá, ressaltou que eram necessários todos os recursos em abundância pois a viagem seria demorada. Uma parte seria feita de avião, outra de carro, por estradas não tão boas, e o resto, dentro da selva, seria feita a pé.

Bola, Carlos e Gilberto voltaram à noite ao hotel com suprimentos para os 7 dias de expedição, contanto os dois dias de viagem. Compraram barracas, lanternas, pilhas, repelentes, comida, água, roupas para caminhada e um facão. Também traziam fotos do local e um mapa que compraram numa barraca de artigos místicos.

O mapa falava sobre o crescimento do garimpo e das atividades extrativistas. Mas também, contava histórias de crimes ocorridos no local e de algumas lendas que a população do garimpo passou a compartilhar.

Segundo o mapa, o lugar seria assombrado por garimpeiros assassinados durante o período de grande violência e criminalidade na região de Serra Pelada. Além disso, havia uma localização anotada no mapa sobre uma mina que teria desabado, matando os garimpeiros pela falta de água, comida e oxigênio.

O vendedor do mapa ainda acrescentou que a história oficial era que a mina tinha desmoronado, porém, a lenda era que os garimpeiros teriam encontrado muito ouro e resolveram esconder a mina para evitar saques. Eles sairiam com uma boa quantidade e guardariam o resto para o mercado futuro. No entanto, alguma coisa deu errado, pois os explosivos detonaram enquanto estavam dentro da mina. Ficaram presos com o ouro que tanto amavam, vítimas de sua própria ganância. O Ouro que eles tinham retirado, nunca foi encontrado.

Os amigos não levaram a sério as histórias do mapa, ainda menos a da explosão proposital que deu errado. Mas a diversão na viagem estava garantida. Tentariam encontrar os locais durante a expedição.

 

Dia 19 de novembro de 2012, segunda-feira.

Os amigos se reuniram com o Guia para que fosse programado o roteiro da viagem e também onde montariam acampamento. As instruções eram para que não se separassem, pois não seria possível garantir a segurança de alguém sozinho na região em virtude dos garimpeiros ilegais. E eles eram muitos, escondidos e embrenhados na selva.

 

Dia 20 de novembro de 2012, terça-feira.

A expedição parte rumo à cidade de Curionópolis PA. Após uma hora e meia de viagem de avião, uma caminhonete com bancos montados na caçamba e uma lona como cobertura, os esperava para levá-los até a beira da selva. Uma pausa para o almoço à beira da estrada, cortesia do motorista, munido com panelas, comida e lenha para um fogo no chão e eles estariam liberados. A caminhonete voltaria dali alguns dias, no mesmo local e horário, para buscá-los.

Os 3 amigos e Evaldo partem a pé rumo ao destino, numa caminhada que duraria até o dia seguinte. Montariam acampamento ao entardecer para, ao raiar do dia seguinte, seguirem em direção ao norte entrando na selva e nas regiões dos antigos garimpos. A difícil caminhada manteve os amigos unidos ao guia. Porém a coluna seguia em silêncio absoluto. Somente quebrado pelas falas do Guia que explicava sobre a mata, as plantas, a história e as trilhas que haviam por lá.

O Guia ainda ressaltou que eles fariam rotas alternativas para desviar dos garimpos ativos. Não queria ter problemas com os exploradores da região. Além disso, tinha sido avisado sobre a retomada das atividades extrativistas por conta da alta valorização do ouro, no início dos anos 2010. O Guia sabia que isso traria problemas com assaltantes. Afinal, eram terras sem leis.

 

Dia 21 de novembro de 2012, quarta-feira.

Ao raiar do dia, Evaldo acorda Bola, Carlos e Gilberto para seguirem a expedição. No café da manhã apenas bananas e água, para aguentarem a caminhada sem problemas. Bola era o mais cansado, o excesso de peso não permitia que acompanhasse o ritmo de Evaldo, Gilberto e Carlos, bem mais magros e preparados.

À medida que vão entrando na mata, Evaldo vai à frente com uma espécie de cajado para se proteger dos galhos enquanto Carlos segue com o facão abrindo a mata, com Gilberto muito próximo. Bola segue mais atrás com o mapa aberto tentando encontrar algum indício daqueles lugares marcados.

Finalmente sobem uma encosta com mata mais densa até um plano ao lado de uma pedra. Evaldo decide que ali é um bom lugar de observação e acampamento. Eles montam as barracas e acendem uma fogueira. Durante a noite, eles conversam sobre o mapa. Evaldo argumenta que as pessoas fantasiam e aumentam muito as coisas, mas que, a lenda da explosão da mina é muito forte. Porém relata que nunca houve indícios reais de que a mina, de fato, existisse.

Histórias de Terror - Eles Ainda Têm Fome.

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Evaldo conta-lhes também, que a lenda era uma forma de afugentar as pessoas que se aventuravam ou pensavam em ir até o garimpo. Como forma de controlar a população e conter o aumento da criminalidade.

Bola diz que havia coordenadas no mapa, se houvesse um GPS seria possível encontrar o lugar. Carlos responde que seria uma bobagem e perderiam tempo. Gilberto não diz concordar nem discordar, enquanto Evaldo pergunta aos amigos se eles realmente querem tentar. Haveria um desvio na rota que estava programada, portanto deixariam de conhecer alguns lugares, pois a viagem deveria durar apenas 5 dias de acampamento.

Os amigos discutem entre si e resolvem fazer o desvio. Eles escolhem o lugar no mapa que querem conhecer e vão dormir ansiosos pelo dia seguinte.

Dia 22 de novembro de 2012, quinta-feira.

O dia mal amanheceu e eles já estão acordados recolhendo as barracas e apagando a fogueira e qualquer vestígio para não chamar a atenção. A coluna segue em direção à Lagoa da Cratera, Evaldo usa seu GPS e compartilha com os 3 amigos a visão deslumbrante que tem pelo binóculo que carrega sempre em sua bolsa.

Após 4 horas de exaustiva caminhada, fazem uma pausa para o almoço. Enquanto isso observam a rota em direção à gruta apontada no mapa. Descrente de que encontrarão, Evaldo imagina que dali a 3 horas, mais ou menos chegarão ao ponto.

Após o almoço eles descansam por 1 hora e meia. Após o descanso, seguem rumo ao ponto desejado. Após 2 horas de caminhada, Evaldo para bruscamente e pede que todos se abaixem.

Os amigos, assustados, não entendem o que está acontecendo. Evaldo, gesticula desesperadamente com os braços e insiste que se abaixem e fiquem quietos. Os amigos finalmente obedecem.

Carlos põe as mãos trêmulas nos ombros de Evaldo enquanto Gilberto e Bola se entreolham apavorados. Evaldo faz sinal para que permaneçam ali enquanto ele vai vistoriar o que havia logo à frente. Ele sai abaixando entre os arbustos e segue em direção a uma fumaça quase apagando.

Os amigos ficam abaixados, quietos e paralisados de medo. Foram 10 minutos de puro terror enquanto apenas os pássaros e o vento é que faziam barulho. Então eles escutam passos quebrando galhos no chão. Os passos se aproximam deles, cada vez mais perto. Eram passos seguros, não parecia alguém que não queria ser notado.

Evaldo, enfim, aparece entre os arbustos novamente. A cara dele está tranquila e ele convida os amigos a seguir viagem. Eles se levantam meio desconfiados. Caminham atrás de Evaldo e chegam até uma clareira, à beira de uma lagoa, onde a fumaça de uma fogueira quase se apagava. A lenha já havia virado cinza e o guia mostra que ali havia um acampamento abandonado a pouco.

Eles inspecionam o lugar e vêem que o local foi abandonado às pressas, mas não sem antes ser destruído. Os amigos perguntam a Evaldo as razões e o guia pondera que podem ter sido garimpeiros descobertos pela polícia. Era normal garimpeiro ilegal denunciar a posição de seus rivais. Pela denúncia anônima, a polícia os localizava com uma patrulha aérea.

Bola então pergunta para onde eles iriam quando descobertos. O guia responde que eles se embrenham na selva e ficam escondidos até a polícia chegar até o local e fazer a apreensão dos equipamentos. Depois eles encontram outro local para montar seu acampamento e continuar garimpando ilegalmente. Algumas vezes até voltam à cidade para dar um ar de normalidade.

A caminhada continua e eles, após uma hora e meia de caminhada exaustiva, chegam ao local onde o mapa indica uma gruta. Porém, a única coisa que encontram é uma grande pedra no chão formando uma espécie de assoalho e uma outra logo acima, misteriosamente posicionada formando um abrigo.

A formação intriga os amigos pela sutileza com que uma pedra está sobre a outra. Um equilíbrio tênue que não os encoraja a dormir embaixo deste abrigo. Como a noite se aproxima rapidamente, eles decidem acampar por ali e, pela manhã, decidir se voltam ao roteiro original, ou se permanecem seguindo o mapa místico.

Uma minuciosa análise no mapa indica os textos bem enfeitados e destacados. Para Carlos, Evaldo e Gilberto apenas marketing. Para Bola um mistério. O “X” no mapa direciona a um box de texto onde eles lêem o seguinte:

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A alvorada faz o sol revelar à sombra da pedra da boca o local onde se come. A riqueza foi conquistada com luta, sua manutenção feita com sacrifícios. Das profundezas surge a disposição para pelear e a força para matar. À beira da sombra encontre o altar, a distância é sua segurança, o que te aproxima é sua ganância.

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Por alguns instantes eles ficam imaginando o que quer dizer. Chegam juntos à conclusão que a pedra da boca é exatamente aquela formação em que eles estavam. Um arrepio sobe pela nuca de Bola enquanto suas mãos trêmulas chacoalham o mapa, sob o olhar dos outros três.

Eles acalmam Bola dizendo que não há nada demais lá. Embora Evaldo saiba que algo de estranho está acontecendo, pois já tinha ouvido falar dessa pedra quando era criança, porém, ela nunca tinha sido encontrada.

O guia começa a se lembrar do caminho que fizeram. Então ele se atenta que chegaram à pedra pois deram a volta por trás da montanha. Aquele acampamento abandonado os fez seguir por uma outra trilha e, portanto, um novo caminho.

Ele olha para os três amigos, mantém a calma, e diz para todos dormirem. Ao amanhecer eles investigariam a projeção da sombra citada no texto.

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Dia 23 de novembro de 2012, sexta-feira.

Amanhece o dia e o sol começa a projetar uma sombra que se assemelha a um bico de pato aberto. A pedra da boca existe mesmo! Pensa Carlos. À medida que o sol projeta a sombra, o 4 rapazes observam silenciosamente e atentamente para onde vai a sombra do bico.

Eles focam a ponta da sombra e vêem que ela vai para a mata. Gilberto, Carlos e Evaldo se dirigem até lá. Bola está morrendo de medo e fica paralisado olhando a sombra. Ele está tomado pela magia do lugar e está incorporando a veracidade das lendas. Enquanto os outros estão curiosos e apreensivos com a segurança de todos naquele lugar isolado.

Bola fica arrepiado quando observa, não a ponta da sombra, mas o meio. A projeção, como se fosse uma tesoura, para em uma árvore com o tronco aparentemente riscado. É um tronco robusto com grande diâmetro, capaz de esconder um homem.

Bola, ainda sem palavras, aponta, com as mãos trêmulas, a árvore. Enquanto ele fica paralisado tentando balbuciar as palavras. Carlos, Evaldo e Gilberto exploram a mata sem encontrar vestígios de nada.

Então Gilberto cutuca Carlos e Evaldo, apontando para Bola. Carlos rapidamente pergunta a Bola o que está acontecendo e ele só consegue tremer e apontar a árvore. Carlos insiste em saber o que há de mais lá.

Bola respira fundo e, ainda tremendo, aponta um pouco mais para cima. Gilberto pergunta se eles está querendo mostrar a árvore. Bola logo responde num acesso de coragem:

– Cruz! Vejam a Cruz!

Os três olham para o tronco subindo o olhar em direção à copa, logo acima, entre as folhas há um galho atravessado na horizontal, preso com cipó, formando uma cruz.

Os Três correm e se juntam a Bola que está apavorado. Todos os rapazes agora começam a se envolver com a lenda e passam a não duvidar da história do mapa místico.

Carlos se enche de coragem e vai até a árvore. Quando chega até lá, observa atentamente o tronco e percebe que não há indícios que alguém tenha subido ali para montar aquela cruz, a não ser que tenha sido há alguns anos.

Ele dá a volta na árvore e some dos olhares apavorados de Bola, e curiosos de Gilberto e Evaldo. Depois de alguns minutos Carlos dá um grito que faz os corações dos outros três dispararem.

– Tem uma placa aqui! Grita Carlos.

– O que está escrito? Responde Evaldo.

– Está difícil de ler! Devolve Carlos, olhando mais de perto aquela placa de madeira pintada que, misteriosamente, não estava desbotada.

– Esta placa deve ser recente pois não está totalmente podre. Disse Carlos.

– Venham aqui. Prosseguiu ele.

– Estamos bem aqui. Responde inesperadamente Bola.

Carlos livra a placa das folhas e do lodo acumulados, e consegue decifrar o que está escrito lá.

– Consegui! Vejam o que está escrito: “Um passo atrás aos prudentes e um passo à frente aos destemidos. Que encontrem seu Eldorado com cuidado, pois eles têm fome.” Recitou Carlos.

Quando terminou de pronunciar as palavras uma fria brisa passou de repente pela nuca de Carlos, arrepiando seu corpo e balançou os cabelos de Gilberto, Evaldo e Bola. Os últimos sentiram calafrios com aquele vento inesperado num dia tão quente.

Evaldo começa a lembrar das brincadeiras de criança e dos momentos que viveu naquela região, ao lado do pai, garimpeiro ilegal. Começou a sentir medo e vontade de voltar. Nunca poderia imaginar que aquela pedra, aquela placa e aquela frase existiam.

Sentiu saudades da mãe e lembrou de seus conselhos. Ela costumava dizer: “Não duvide da sabedoria popular pois o povo de Deus não mente. Se sentir medo apenas se afaste e confie no amor de Cristo.” lembrou disso apertando a correntinha com uma cruz que carregava em seu pescoço. Feita com o pouco ouro que sobrou para seu pai, em alguns anos no garimpo.

De volta à realidade, ouviu Carlos os chamando até a árvore. Era como se o tempo tivesse parado enquanto ouvia o conselho de sua mãe.

– Precisamos ir embora. O transporte está tratado e estamos a dois dias do ponto de encontro. Disse Evaldo.

– Acho melhor irmos mesmo. Completa Bola.

Gilberto, sempre indeciso, olha para Bola e Evaldo e depois direciona seu olhar a Carlos que responde: Viemos até aqui, achamos isso, vamos ver o que mais é possível encontrar. Se não houver mais nada vamos embora.

Evaldo fecha os olhos em sinal de temor pelo que estava por vir. Ele sabia que havia algo de errado mas não podia contar aos outros tudo o que sabia, sob pena de ser cobrado por isso. Mas o que mais o assustava era a leitura em voz alta das palavras da placa e aquele misterioso vento que soprou no exato momento da leitura.

Gilberto puxa Bola pela mão até a árvore. Evaldo segue atrás, repassando, em pensamento, todas as orações que conhece.

Ao chegarem atrás da árvore encontram Carlos raspando o chão com os pés tentando encontrar uma porta ou algo parecido. Carlos acredita que se existe entrada da mina está ali. Bola responde que, de acordo com o mapa, a mina seria a algumas horas dali. Evaldo então responde que aquilo deveria ser brincadeira do pessoal pra vender mapas.

Eles vasculham por uma meia hora um raio de 200 metros em torno da árvore e não encontram nada suspeito. Carlos reúne todos e diz que está disposto a seguir em direção à mina. Evaldo pondera que eles precisam voltar ao ponto de encontro para voltarem pra Belém. Bola consente com a cabeça e Gilberto diz que o que eles decidirem estará decidido.

Carlos, em tom de liderança, pega o mapa e chama Evaldo para decidir qual o melhor caminho para retornarem. Eles observam atentamente as marcações do mapa. Carlos quer seguir em direção aos pontos marcados, Evaldo quer justamente o contrário. Após alguma insistência, Carlos concorda em seguir o caminho de volta pela frente da montanha. Diferente do rumo que os levou até lá.

Eles recolhem rapidamente os materiais do acampamento e rompem em marcha de volta. Após uma hora e meia de caminhada, a hora do almoço se aproxima, eles buscam um lugar para acender uma fogueira.

Quando recolhem a lenha, um barulho assustador de galhos se quebrando na floresta começa a se aproximar deles. De repente um grito de dor ensurdece os amigos que se jogam no chão e atrás dos arbustos. Estão apavorados!

O grito não se estende por mais de dois minutos e logo a selva se cala novamente. Os 4 rapazes respiram aceleradamente com seus corações disparados, enquanto permanecem imóveis escondidos em arbustos.

Outra vez um barulho de galhos se quebrando e se aproximando e um novo grito de dor é ouvido por longos 3 minutos. Eram gritos desesperados de dor, que indicavam algo assustador acontecendo.

Os rapazes permanecem amedrontados, calados e escondidos pelos próximos 10 minutos. Quando as coisas pareciam calmas, Evaldo gesticula para que se levantem. Eles se reúnem e Carlos toma a frente do grupo.

– O que está acontecendo? Pergunta Carlos a Evaldo.

– Não sei. Responde Evaldo.

– Estes gritos são assustadores, será que estamos em algum acampamento? Perguntou Carlos.

– Pode ser, vamos embora. Conclui Evaldo, agora pálido de medo.

Eles se recompõem, desistem do almoço e seguem em passo acelerado de volta. Nem 10 minutos de caminhada e Bola dá um grito alto de medo. Carlos e Gilberto correm para ver o que ele tem e Evaldo pede que façam silêncio.

Quando os amigos chegam até Bola ele está chorando e muito apavorado com um corpo todo dilacerado no chão. Os amigos se entreolham assustados e chamam Evaldo para ver aquilo. O Guia chega e constata aquilo que não queria acreditar.

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A lenda é verdadeira. Evaldo avalia a situação do corpo descarnado. Apenas os ossos e muito sangue em volta havia sobrado. A carne e os órgãos daquele corpo haviam sido devorados com rapidez inimaginável.

Uma breve olhada entre outros arbustos e mais um corpo foi encontrado. As mesmas características. O corpo dilacerado a carne comida e os ossos com algumas fibras e músculos haviam sobrado. Além disso o facão que a vítima carregava e seus utensílios estavam ao lado do corpo.

Os rapazes estavam apavorados. Evaldo estava tomado pelo desespero e clamou que fossem embora dali. Carlos ainda explorava os corpos enquanto Gilberto consolava Bola que chorava copiosamente.

Depois de longos 5 minutos de agonia, Evaldo os convence a prosseguir.

Mais 2 horas de uma caminhada difícil e eles observam um novo acampamento no meio da selva. Está destruído e não há fogueira. O dia está acabando e eles estão exaustos.

Evaldo decide parar por ali para descansar e passar a noite. Sabe que é arriscado. Pondera os riscos com os demais e em decisão unânime eles param. Uma observada pelo binóculo e nenhum movimento dentro do acampamento.

Eles se aproximam cuidadosamente. Observam ao redor e percebem que há algumas ferramentas encostadas no rancho. parecem ter sido usadas recentemente. Ao dar a volta na tapera, Carlos se assusta e cai no chão ao tentar andar para trás.

– Meu Deus! Grita Carlos.

Os demais correm e se deparam com mais 10 corpos dilacerados. São ossos presos com alguma coisa de carne e muito sangue em volta. Foram devorados também.

Bola se desespera e chora sem parar, está com muito medo de morrer. Gilberto está apavorado e não sabe o que fazer para controlar o amigo. Carlos está paralisado de medo e Evaldo tenta, desesperadamente, mantê-los calmos.

O dia vai escurecendo ainda mais e eles decidem dormir ali, ao lado daquelas ossadas descarnadas. Cada um escolhe um local onde não haja sangue espalhado para deitar no chão, apoiando as cabeças sobre as bolsas.

No dia seguinte partiriam cedo, caminhando sem trégua para o ponto de encontro. Não viam a hora de sair daquele lugar assustador. O medo mera tão grande que um dia sem refeições não fazia a menor diferença. A esta altura, eles não sentiam fome. Deitaram. Respiravam sem fazer barulho e suforacaram o medo. Tentaram por horas dormir mas o coração disparado não deixava.

O Pavor tomava conta a cada barulho na selva. Os quatro rapazes não se comunicavam com medo de chamar a atenção ou assustarem uns aos outros. A noite seria longa e desesperadora.

À medida que a madrugada avança, o medo vai sendo vencido pelo cansaço e os quatro rapazes caem no sono, em meio aqueles corpos descarnados e aquele sangue espalhado pela tapera destruída.

 

Dia 24 de novembro de 2012, sábado.

O sol nem bem nasceu e Bola já abre os olhos de repente. Não consegue se lembrar o que aconteceu. Seu corpo doía tanto que ele mal conseguia se mover. Não entendia porque estava tão cansado. Pensou ter sonhado com coisas horríveis.

Ao passar os olhos pelo ambiente, ainda em penumbra, nota que os amigos estão todos ali. Sente um alívio. As lembranças começam a aparecer e o medo volta na mesma medida. Silenciosamente ele tenta se levantar sem acordar ninguém e sem chamar a atenção.

Consegue se levantar e vai caminhando em meio aos corpos descarnados amontoados em um canto como se tivessem morrido ao mesmo tempo. Ele dá alguns passos e para à beira da tapera. Uma brisa fria balança seu cabelo e um arrepio percorre seu corpo.

Ele olha mais à frente e fica imóvel tentando identificar o que está acontecendo na selva. Fica em silêncio completo. Escuta um barulho como se fosse o rosnar de um cão, misturado ao barulho de tecido sendo rasgado e algo sendo arrastado no mato.

As imagens que passam em sua cabeça não são claras e ele força a memória para tentar lembrar de algo que possa explicar o que escuta. A alvorada prossegue, clareando a visão de Bola. Agora ele consegue identificar alguém logo mais à frente.

Parece um homem grande com as costas largas, um macacão jeans surrado, rasgado e manchado de sangue. O homem parece estar sem camisa. Bola não consegue entender, mas percebe que está se alimentando.

Nesse instante o homem joga para trás algo comprido que cai ao lado de Bola. É uma perna humana apenas com ossos e algum pouco de carne. O homem estava se alimentando de carne humana.

Bola tem vontade de gritar mas não consegue se mover. O homem está logo à sua frente, sem perceber sua presença.

Carlos acorda repentinamente com o barulho dos ossos caindo ao chão e vê Bola em pé paralisado. Ele levanta silenciosamente e chama Evaldo e Gilberto colocando as mãos em suas bocas para que não possam gritar, caso se assustem.

Carlos segue silenciosamente até Bola e tem a mesma visão aterrorizante do amigo. Não consegue acreditar no que vê. Aquela criatura de costas enormes, parecido com um homem, devorando o que parecia ser uma pessoa do acampamento.

Aquela brisa volta e gela os corpos dos 4 rapazes. Evaldo não quer nem ver o que já imagina estar logo à frente. Gilberto cola em Bola e Carlos e fica chocado com a criatura que parece não perceber a presença os rapazes ali.

De repente, a criatura se levanta. Joga perto da tapera aquilo que sobrou do corpo que estava devorando. Os rapazes observam por trás dos sacos que fazem uma meia parede na casa. A criatura tem os braços feridos, quase que somente ossos, a cabeça também é uma caveira com alguns pedaços de carne colados.

Uma visão que embrulha o estômago de Bola e quase o faz vomitar. A criatura sai em direção à floresta densa. Os amigos se entreolham e demonstram todo o pavor em ver aquele monstro devorador de corpos logo ali. Não sabem o que fazer, parece um problema sem solução. Então, alguns minutos de silêncio.

– O que está acontecendo Evaldo? Avança Carlos em direção ao Guia.

– São os garimpeiros. Responde Evaldo.

– Não existem pessoas deste tamanho, que garimpeiros? Pergunta Carlos.

– Aqueles, da mina que explodiu. Murmura Evaldo.

– Como pode ser? Você disse que era só lenda! Gilberto rebate.

– Também achei que fosse apenas lenda. Responde Evaldo.

Os amigos então se revoltam contra o guia acusando-o de ter enganado eles. Se soubessem que esses monstros existiam nunca teriam ido lá. Cobram dele a solução para saírem daquele lugar vivos.

Evaldo logo rebate as acusações dizendo que tentou ir embora antes que Carlos conseguisse ler as palavras daquela placa. E continua: segundo a crença do povo que vivia ali, quando aquelas palavras são lidas, os garimpeiros saem da mina em que vivem para saciar sua fome.

Histórias de Terror - Eles Ainda Têm Fome.

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Evaldo explica melhor:

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Eram sete garimpeiros que encontraram a mina. Fizeram um pacto de retirar uma parte do ouro e esconder a mina para que pudessem voltar lá e explorar mais, depois da febre do ouro na região. Quando estavam fazendo o trabalho de retirada, deixaram um deles para fora, como segurança, enquanto os outros transportavam o ouro. Porém, o garimpeiro que ficou na segurança ativou os explosivos, fechando a entrada da mina e matando seus companheiros de fome e sede. Acabou fugindo com o ouro. No entanto, os companheiros tinham cavado uma saída por outro lado da mina.

Histórias de Terror - Eles Ainda Têm Fome.

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Mas, com medo de serem roubados, acabaram ficando e morrendo lá. Seus espíritos tinham ido embora, mas seus corpos, sem alma, ficaram presos ao ouro que tanto amavam. Prometeram defender a mina de qualquer um que se aproximasse, matando e se alimentando de seus corpos. A placa, é um chamado. Cada vez que alguém diz aquelas palavras em voz alta, os garimpeiros saem da mina e matam todos que estão à sua volta, pois consideram todos uma ameaça. Por isso a placa pede: Um passo atrás aos prudentes e um passo à frente aos destemidos. Que encontrem seu Eldorado com cuidado, pois eles têm fome.” Quando a fome dos garimpeiros estiver saciada, eles sairão da mina em busca daquele que os traiu para uma vingança.  

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Ao terminar de contar a lenda real, Evaldo percebe que os amigos estão brancos. Aterrorizados e desnorteados. Carlos começa a andar de um lado ao outro repetindo em voz baixa que iria morrer.

Gilberto, geralmente o mais quieto, não consegue conter a emoção e chora desesperado com a possibilidade de ser devorado pela criatura que havia visto.

– Perae! São seis criaturas destas? Pergunta Carlos.

– Fora da mina apenas três. Devolve Evaldo.

– Estamos perdidos. Emenda Bola.

– Vamos embora em nossa caminhada. Temos que arriscar. Decide Evaldo.

Os rapazes saem em disparada pela floresta amedrontados e sem olhar para trás. Cada barulho no mato apenas dá mais motivação para que corram desesperadamente. Há um longo caminho até o ponto de encontro e eles tentam se afastar o mais rápido possível da região da mina.

O desespero é tão grande que eles acabam correndo em direção ilógica, caindo direto num outro acampamento ilegal. Sem perceber estão na clareira junto a outros garimpeiros. O susto é mútuo. Quando os rapazes se dão conta eles param juntos e olham para os garimpeiros.

Cerca de 13 homens rústicos e maltratados pelo tempo apontam as armas pra eles. Perguntam o que eles estão fazendo ali. Evaldo diz que estão fugindo dos 6 garimpeiros da mina perdida. O líder do acampamento fala de forma rude com eles que aquela história é bobagem e manda um de seus companheiros revistar os rapazes.

Bola sente aquele vento passando três vezes e gelando sua espinha. Ele sabia que estavam ali. Antes que o garimpeiro pudesse revistar os rapazes, um gancho atravessa o corpo do líder do acampamento e o puxa com força para longe. Outros dois garimpeiros são surpreendidos por duas mãos esqueléticas esmagando e arrancando suas cabeças.

As criaturas estavam lá no acampamento. De repente, o corpo dilacerado e descarnado do líder reaparece, preso à sua cabeça que não foi devorada. Aquelas criaturas metade humanos e metade esqueletos, por alguma razão mantinham suas cabeça apenas com o os ossos.

Os garimpeiros tentam atirar e matar as criaturas que pareciam imunes, e foram devorando um a um aqueles do acampamento. Um dos garimpeiros chora desesperadamente e diz que não é o destemido. Repete o mantra diversas vezes, antes de ter sua carne devorada por uma das criaturas.

Os 3 amigos se abraçavam no chão enquanto Evaldo rezava e se escondia embaixo de algumas folhas de palmeira que estavam ali. Enquanto isso, os garimpeiros eram devorados por 3 criaturas enormes e assustadoramente vorazes. Seus corpos viraram apenas ossos e cabeças.

Bola dá uma olhada rápida e percebe que a as criaturas comem a carne e ela se incorpora ao próprio corpo. À medida que descarnam e devoram aqueles homens, os músculos e órgãos vão aderindo, completando e regenerando o corpo das criaturas.

Os treze homens foram devorados. As criaturas agora se voltam para os amigos. Evaldo dá um grito para que corram pois eles ainda têm fome. Quando se levanta, o gancho vai em direção a seu peito e ele é logo puxado para os braços de uma das criaturas.

Histórias de Terror - Eles Ainda Têm Fome.

Histórias de Terror – Eles Ainda Têm Fome.

Logo em seguida, Bola é pego pelas pernas e com muita força, a criatura consegue quebrar ao meio seu corpo. Ele morre em segundos. Gilberto olha para o amigo sem saber o que fazer. Se encolhe no chão com seus braços sobre o rosto tentando se proteger.

O corpo de Bola rapidamente fica apenas em osso. Evaldo, com o gancho cravado no peito e um de seus braços dilacerado, grita de dor e implora por sua vida. Carlos grita desesperadamente, está de joelhos em frente a uma das criaturas que o agarra pelo pescoço e o levanta no ar.

As três criaturas pareciam insaciáveis. Seus corpos enormes ainda precisavam de muita carne para ficarem completos. Com exceção da cabeça que exibia os ossos, alguns pedaços de carne e olhos humanos protegidos apenas pelas órbitas do crânio. Eram criaturas demoníacas que não demonstravam sentimentos.

Após devorar Bola, a criatura agarra Gilberto pelos braços e abre seu corpo ao meio como se fosse papel. Joga metade de seu corpo para uma das criaturas que descarna aquela pessoa franzina e a devora em segundos. Enquanto isso, a outra metade de Gilberto é devorada rapidamente por outra criatura. Os ossos de Gilberto e sua cabeça dividida, agora repousam ao lado dos destroços de Bola.

Ao ter uma das penas arrancadas, Evaldo implora por sua soltura apontando para Carlos e gritando com alguma dificuldade:

– Ele é o destemido.

As duas criaturas com as mãos cheias de sangue e os olhos dominados por ódio se voltam para Carlos.

Evaldo acaba morrendo quando a criatura arranca sua cabeça e devora uma de suas pernas, jogando o que sobrou do corpo fora.

Carlos é levado pelas criaturas para a pedra da boca. Ainda com vida, ele assiste ao ritual macabro que faz abrir uma porta logo abaixo da árvore da cruz. Aterrorizado ele vê as outras três criaturas emergirem do buraco aberto no chão. Diferente dos três primeiros, essas criaturas ainda tinham os corpos bem esqueléticos e exibiam olhos mais profundos e sombrios, sem aquele branco dos olhos dos outros.

Histórias de Terror - Eles Ainda Têm Fome.

Histórias de Terror – Eles Ainda Têm Fome.

Aquela visão aterrorizante parecia o fim da linha. Tentava imaginar o que iria acontecer, tinha muitas imagens na sua cabeça e em fração de segundos alguma coisa selaria seu destino. De repente, Carlos é jogado ao chão. A pancada foi forte, não conseguia se levantar. Imaginou que estava com a coluna quebrada. Uma das criaturas arrancou seu braço. Carlos teve espasmos de tanta dor mas, consciente, viu a criatura escrever na placa com seu sangue.

Carlos compreendeu que, ao dizer a frase, havia desafiado as criaturas, por isso foi apontado como “o destemido”. Teve seu corpo quebrado pois não poderia dar o passo à frente e nem um passo atrás. Ele seria o sacrifício.

 

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Passos no Sótão

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Contos de Terror Inéditos – Passos No Sótão

Às vezes, quebrar o silêncio é a pior coisa que pode acontecer.

 

Era a primeira vez que Sofia dormia sozinha naquela casa. A viagem inesperada de seus pais daria a chance de explorar aquela construção antiga e grandiosa.

Ao entardecer, na enorme porta de entrada, ela observa o carro de seus pais indo em direção à rodovia. Repassa em sua mente as instruções para certificar-se de trancar a casa durante a noite. Ainda eram novos na região, não conheciam bem aquela vizinhança.

Sofia tem certeza que trancando bem as portas e janelas ninguém conseguiria entrar. Estaria segura lá dentro até a tarde do dia seguinte, quando seus pais estariam de volta.

A noite chega! Lá fora está uma escuridão total, as nuvens cobrem a lua dando um ar ainda mais sombrio à paisagem. Dentro da casa, Sofia assistia TV com todas a luzes apagadas. Gostava desse jeito, achava que as cores ficavam mais vivas.

Quando o sono rouba-lhe as energias, decide ir para seu quarto no andar de cima. Sobe as escadas cobertas por um tapete vermelho, degrau a degrau. Quando chega o hall superior, anda desviando das caixas da mudança, ainda abarrotadas de coisas.

Cada toque de seus pés no chão, move as réguas do velho assoalho de tábuas. Ritmo de passo marcado pelo barulho no caminho até sua cama. Começa a brincar com o barulho, pisando a madeira em lugares e com força diferentes, fazendo ritmos que lembravam as batidas de suas músicas preferidas.

Sofia se deita enfim! Acomoda-se na cama, fecha os olhos e cai em sono profundo.

Por volta das 3 horas da manhã, Sofia levanta-se e desce até a cozinha para beber água. O Silêncio dentro da casa é sepulcral, exceto pelo toque de seus pés descalços no assoalho. Generosos goles d`água saciam sua sede seguidos de um longo e barulhento suspiro de alívio. Sofia coloca o copo na pia e volta em direção ao quarto marcando o passo pelas tábuas.

Ao passar pela porta da cozinha para a sala de estar, olha em direção à escada e ouve passos que correm assustadoramente no sótão. Um lento e demorado arrepio sobe pelo seu corpo. Sofia sente o coração disparar enquanto se esforça para manter o silêncio. Ela se encolhe dentro de si mesma como se quisesse ficar invisível. Foram alguns minutos de silêncio total e respiração quase presa contrastando com ritmo das batidas do coração.

– Quem está aí? Sofia pergunta.

Ouve a madeira chacoalhar como se 2 pessoas corressem no sótão. Era assustador ouvir aqueles passos pois ela imaginava estar sozinha na casa. Os passos eram curtos e rápidos. O assoalho denunciava cada movimento na casa, mas Sofia não conseguia ver nada além de seus próprios pés caminhando.

– Quem está aí? Sofia pergunta novamente.

Agora eram 4 pessoas correndo de um lado pra outro no sótão. Sofia continua imóvel com a espinha gelada e um medo que faz seu coração disparar mais uma vez. Quer correr mas o medo a paralisa totalmente. É como se estivesse pregada ao chão.

– Desçam daí agora! Grita Sofia, ascendendo a luz do corredor superior da escada.

Ela olha para cima e nada acontece, nenhum passo ou barulho. Ela dá cinco lentos e cuidadosos passos em direção à escada. Não importa o quanto tente dar leveza aos pés, o assoalho não deixa a casa em silêncio. Um último passo, um barulho mais forte de uma das tábuas e, de repente, a porta do sótão se abre fazendo um enorme estrondo.

Sofia escuta muitos passos pelo assoalho mas não consegue identificar o que são ou onde estão, só sabe que eles desceram do sótão e alguns passaram perto dela. Escuta 4 sons fortes batendo no chão embaixo da escada, a um metro de distância de onde ela está.

Parece que 4 pessoas pularam pela escada, as outras 6 desceram correndo. Sofia é tomada por uma angústia que quase a faz desmaiar. Ela agora sente um ar quente vindo de várias direções.

– Meu Deus! Pensa Sofia.

– São pessoas respirando? Conversa consigo mesma, enquanto seu corpo está pálido e paralisado de tanto medo.

Sofia continua imóvel, apenas sentindo as respirações próximas. Seu desespero é tamanho que não consegue coordenar seu corpo. A mente quer correr e as pernas querem amolecer. O coração bate em ritmo acelerado.

– Saiam daquiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii! Grita desesperadamente com todas as forças do seu corpo gelado pelo medo.

Aquele berro desesperado e estridente de Sofia ecoa em toda a casa e produz, em seguida, um silêncio mortal. Ela não sente mais a respiração próxima nem ouve passos.

Continua paralisada pelo medo, mas corre os olhos ao redor da escada até a porta do sótão que está aberta. Estava tão desesperada que não admitia a chance de ser apenas um sonho. Com aquele silêncio que se seguiu, aos poucos sua respiração foi ficando calma e o coração foi ficando mais compassado.

Então, alguma coisa puxou as pernas de Sofia e todos aqueles passos foram ouvidos correndo escada acima enquanto ela sentia suas pernas fortemente presas por mãos enormes e invisíveis que a puxavam para o hall superior da escada.

Enquanto gritava de medo era levada por uma força sobrenatural até a porta do sótão. Seu instinto a fez segurar a borda da porta tentando se salvar. A força com que é puxada é tão grande que ela não consegue resistir. Ela vê pela última vez a luz da sala quando a porta do sótão se fecha de uma vez fazendo um enorme estrondo.

Agora Sofia está na escuridão total. O medo toma conta de seu corpo novamente, enquanto ela tenta respirar sem fazer barulho. Aquela respiração curtinha parece ser solitária no sótão quando Sofia começa a ouvir passos e mais passos.

 

__

Os passos faziam um barulho ensurdecedor naquele silêncio sepulcral da casa de Sofia. Parecia que aqueles visitantes que ela não via estavam tentando deixá-la louca. Quanto mais ela tentasse não ouvir, mais eles sapateavam no sótão.

__

 

Deitada no chão consegue sentir a vibração da madeira como se várias pessoas se reunisse em volta dela. Seu coração dispara outra vez. Lágrimas escorrem de seus olhos arregalados enquanto os passos não cessam.

O assoalho ecoa mais dezenas de passos rápidos que fazem Sofia se encolher de medo e quase soltar o coração pela boca. Ela então sente seu corpo desfalecer de medo quando uma mão velha põe o dedo em sua boca fechando-a.

– Silêncio! Queremos descansar em paz. Diz uma voz rouca e assustadora.

 

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O Sino da Fazenda

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Contos de Terror Inéditos – O Sino da Fazenda

As 7 Badaladas Daquele Sino de Bronze Anunciavam a Sentença de Morte na Fazenda.

1836, o coronel ainda matutava quem seria o escravo responsável pelas badaladas do sino, que significavam a aplicação da pena de morte na fazenda.

Enquanto o velho fazendeiro lustrava sua arma, deixando-a reluzente, a brisa fria do entardecer refrescava seu rosto e balançava levemente o açoite pendurado no prego da coluna da varanda.

O sino de bronze descansava na varanda lateral da casa grande. A vista era para o tronco de madeira sobre um assoalho de pedras manchadas. Aquele tronco, há um ano, não era utilizado. As terras não produziram nada desde a última vez que aquelas pedras sentiram o sangue quente do último escravo açoitado.

O fazendeiro lembrou os tempos de glória, grande produção, riqueza, seu lote invejável de escravos e o que mais gostava: a hora do açoite. Nunca deixou que o feitor fizesse o serviço, fazia questão de castigar os escravos e dar o exemplo pessoalmente.

Uma forte emoção tomou conta dele quando lembrou da esposa e da querida filha, mortas um ano antes. Não consegue lembrar a última vez que abraçou a filha. Andava sempre ocupado açoitando seus escravos.

No dia em que elas se afogaram, o velho fazendeiro tornou-se um homem ainda mais cruel. Mal sabia ele que seria a última vez que castigaria um de seus escravos no tronco.

Ao cair da noite, se recolhe para seu quarto. Faz algumas anotações e começa a se planejar para o novo lote de escravos que chegaria. Desde o trágico dia da morte de sua família, ele havia prendido os escravos na senzala deixando-os sem comida e sem água. O castigo era para que apontassem o responsável pelo afogamento de sua esposa e sua filha.

Como não houve confissão, o fazendeiro matou o escravo mais antigo, respeitado e querido por seus companheiros de senzala, açoitado até a morte sob os olhares de todos os escravos da fazenda. Os que ficaram, morreram de fome e sede trancados na senzala.

Durante a noite o fazendeiro ouviu o sino dar 7 badaladas. Acordou assustado! Vestiu-se rapidamente, pegou sua arma reluzente e correu até a varanda lateral da casa grande. Não era possível o sino estar badalando! Não havia ordem nem escravos para isso. Ponderou ser apenas um sonho e voltou a dormir.

Na tarde seguinte, um mensageiro chegou à fazenda com uma notícia para o fazendeiro. O cavalo do mensageiro respirava alto e forte pelo cansaço enquanto o rapaz, trêmulo, anunciava ao fazendeiro: o comboio que trazia seu lote de escravos havia sido atacado à noite e todos foram mortos.

O fazendeiro, incrédulo, disse não ser possível e gritou com o mensageiro querendo logo os escravos. O mensageiro, amedrontado, disse que viu todos os escravos, os seguranças e o feitor na estrada,  com as gargantas cortadas.

Com os olhos cheios de raiva o fazendeiro ordenou ao mensageiro o levasse ao local. Durante o trajeto o fazendeiro não disse uma palavra. Apenas cerrou seus olhos raivosos tentando aproximar a imagem de sua ruína financeira.

Quanto mais se aproximava do local cheio de corpos mais seu ódio aumentava. A estrada estava coberta de sangue e, entre as vítimas, estava seu feitor. Responsável pela segurança da carga, não foi poupado nem depois de morto. O fazendeiro passou com o cavalo sobre ele algumas vezes aos gritos de: Canalha Incompetente!

O mensageiro se afastou do fazendeiro que observava seu investimento sobre a terra vermelha. Um rio de sangue cheio de corpos com gargantas cortadas foi tudo o que restou ao fazendeiro naquela tarde quente.

Sua visita à cena durou pouco. Sem se despedir nem demonstrar tristeza ou pena, o fazendeiro voltou galopando para sua solidão na fazenda. O ódio tomou conta do seu corpo e o fez sentir um calor queimando sua garganta. Mas desta vez não havia a quem culpar nem escravos para castigar.

Ao chegar à fazenda logo se dirigiu ao tronco. Conferiu as instalações, caminhou sobre as pedras e prometeu que elas seriam banhadas com sangue novamente. Voltou para a casa grande e se preparou para dormir. O dia seguinte jamais seria esquecido naquelas bandas.

Lá pelas 5 horas da manhã o sol começava a apontar no horizonte. Nascia aquecendo a casa pelos quartos em direção à varanda lateral e se punha iluminando o sangue derramado nas pedras à beira do tronco.

O fazendeiro acordou com 7 badaladas do sino. Ele levantou-se e, rapidamente, trocou de roupa. Ouviu uma gargalhada demoníaca e mais 7 badaladas.

Empunhou a arma, pegou na gaveta mais alguma munição e saiu pela porta em direção ao sino. Não havia nada lá! Olhou ao redor do tronco e não conseguiu identificar se havia algo em volta, pois o dia não estava totalmente claro.

Desceu as escadas em direção à senzala e ouviu mais uma vez aquela gargalhada maldita e o sino badalando mais 7 vezes. Virou-se rapidamente para trás e atirou em direção ao sino. Mais uma vez, não havia ninguém lá.

O fazendeiro ficou ainda mais irritado e seu ódio cresceu. Ele voltou seu olhar para a senzala e viu sua porta escancarada. Cerrou seus olhos tentando identificar o que havia lá dentro. De arma apontada para frente, ele caminhou cauteloso. Passo a passo aproximou-se da porta escancarada e tentou identificar o que rastejava pelo chão de terra.

O ser rastejante parou! A gargalhada ecoou forte mas o fazendeiro não voltou-se para trás, concentrou-se naquele ser que rastejava.

A imagem foi se revelando à medida que o sol se abria. O ser rastejante voltou rapidamente para dentro da senzala. O Fazendeiro parou e ouviu risadas e cochichos lá dentro.

Por alguns minutos ficou inerte, concentrando-se nos sons vindos de dentro da senzala. De repente, um braço negro envolveu o pescoço do fazendeiro segurando-o firmemente, enquanto uma mão enorme apertou seu pulso com força sobrenatural e fez com que soltasse a arma no chão.

O fazendeiro ordenou sua soltura mas não foi atendido. Nesta hora o ser rastejante se revelou à luz do amanhecer. Um escravo com as pernas quebradas saiu rastejando rapidamente da senzala.

O fazendeiro, entre tentar se livrar dos braços que o seguram e respirar, olhou e se espantou com o escravo de olhos negros e sem brilho. Observou com atenção e reconheceu a marca no rosto do escravo.

Impossível! Pensa o fazendeiro. Era Custódio! Havia quebrado as pernas e marcado seu rosto com a identificação de escravo fugitivo. Mas como pode? Ele havia morrido de fome com os outros.

O sino tocou novamente e o fazendeiro ouviu a gargalhada ao seu lado. Os braços e mãos que o seguravam, subitamente, sumiram. Ele rapidamente pegou sua arma e atirou em Custódio.

A imagem do escravo rastejando sumiu assim que atirou. O Fazendeiro pensou estar enlouquecendo. Correu para dentro da senzala e olhou em volta. Não havia nada lá dentro. Voltou-se para trás e viu aproximadamente 100 escravos sentados à beira do tronco.

Não havia brilho nos olhares. Parecia não haver sequer olhos. Eram de uma cor negra opaca e sem o branco dos olhos. As bocas não se mexiam, a pele parecia podre e alguns exibiam ossos com vermes caindo pelo chão. Mas eles estavam lá. Todos aqueles escravos mortos de fome estavam lá, ao lado do tronco, como da última vez.

O fazendeiro deu a ordem para que eles sumissem de lá. Aos gritos, exigiu que os escravos voltassem para o fundo da terra, onde foram enterrados. Nada aconteceu, eles permaneceram imóveis, como se não ouvissem. Neste momento, Custódio passou rastejando com velocidade incrível e se uniu aos outros escravos.

 

__

Custódio tinha as pernas quebradas por ser escravo fugitivo. Tinha também o rosto marcado a ferro em brasa. Mas, naquele dia, corria com velocidade sobrenatural, como nos dias de juventude.

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Uma respiração quente se aproximou do fazendeiro e ele sentiu um forte cheiro de carne podre, que lhe causou ânsia. Aquelas mãos fortes o seguraram novamente com força. Por mais que tentasse, não conseguia resistir.

Aos berros tentando se soltar, o fazendeiro foi conduzido e preso ao tronco sem conseguir identificar quem poderia ter tamanha força e igual insolência. Já preso pelos braços, gritava palavras de ordem para soltá-lo e prometia vingança.

Ouviu novamente a gargalhada demoníaca atrás dele. Olhou rapidamente para a varanda e não viu o açoite pendurado. Quando o Sol já se fazia imponente no céu, iluminava aquelas pedras e aquecia as ferragens que o prendiam tronco. Ameaçou olhar para trás. Antes que completasse o movimento o couro do açoite rasgou sua camisa.

Parecia estar em brasa! A dor lancinante que sentiu não se aproximava de nenhuma outra que já tinha sentido. Mais 4 açoitadas com força sobrenatural se encarregaram de rasgar totalmente a camisa, expondo as costas do fazendeiro ao sol e aos escravos que assistiam, imóveis, o castigo. As feridas produzidas pelo couro se estendiam pelas costas do fazendeiro, que apanhava sem trégua.

O açoite corria por suas costas que sangravam e pareciam pegar fogo. A cada açoitada, o fazendeiro gritava de dor com todas as forças que lhe restavam. Os braços poderosos não se cansavam e continuavam com toda a força o castigo.

Os olhos negros de todos os escravos que assistiam, de repente, ficaram vermelhos e brilhantes. Os lábios deles se moviam para um leve sorriso, demonstrando grande satisfação enquanto o fazendeiro era açoitado com uma força nunca vista antes.

O sol aquecia as grandes feridas enquanto elas sangravam, e as pedras tinham sua dose de sangue prometida. O fazendeiro sentia a proximidade de seu momento derradeiro enquanto o sangue escorria para as pedras, enfraquecendo-o e turvando sua visão.

De repente, o castigo cessou. O fazendeiro, sem forças para gritar de dor, olhou com o canto dos olhos para o lado. Passou pela platéia de escravos e viu o açoite ensanguentado pendurado na varanda. Voltou seus olhos para o céu, o sol a pino sobre sua cabeça cegou-o por alguns instantes. Novamente ouviu aquela gargalhada ecoar pela fazenda.

Olhou para o lado da casa e viu uma sombra negra gigantesca e de olhos vermelhos sobre o telhado. Nunca vira uma imagem tão demoníaca. Era como se o próprio demônio estivesse lá. Aquela sombra era tão grande e assustadora que parecia abraçar sua casa, como se fizesse parte dela. Sentiu medo pela primeira e última vez na vida.

Enquanto quase engasgou com o sangue que lhe saía pela boca, o fazendeiro escutou as 7 badaladas do sino. Olhou para a direção da varanda e viu Timóteo balançando a corda. Aquelas gargalhadas eram dele!

As mãos enormes e ensanguentadas daquele escravo cumpriram pela última vez a função que sempre foi dele. Era o escravo mais antigo, aquele respeitado e amado pelos colegas de senzala, o responsável pelas 7 badaladas que davam a sentença de morte na fazenda. Neste momento, a lâmina do machado no pescoço do fazendeiro encerrou sua vida de maldades.

 

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