Passos no Sótão

Histórias de Terror - Passos no Sótão
Histórias de Terror – Passos no Sótão

Às vezes, quebrar o silêncio é a pior coisa que pode acontecer.

Era a primeira vez que Sofia dormia sozinha naquela casa. A viagem inesperada de seus pais daria a chance de explorar aquela construção antiga e grandiosa.

Ao entardecer, na enorme porta de entrada, ela observa o carro de seus pais indo em direção à rodovia. Repassa em sua mente as instruções para certificar-se de trancar a casa durante a noite. Ainda eram novos na região, não conheciam bem aquela vizinhança.

Sofia tem certeza que trancando bem as portas e janelas ninguém conseguiria entrar. Estaria segura lá dentro até a tarde do dia seguinte, quando seus pais estariam de volta.

A noite chega! Lá fora está uma escuridão total, as nuvens cobrem a lua dando um ar ainda mais sombrio à paisagem. Dentro da casa, Sofia assistia TV com todas a luzes apagadas. Gostava desse jeito, achava que as cores ficavam mais vivas.

Quando o sono rouba-lhe as energias, decide ir para seu quarto no andar de cima. Sobe as escadas cobertas por um tapete vermelho, degrau a degrau. Quando chega o hall superior, anda desviando das caixas da mudança, ainda abarrotadas de coisas.

Cada toque de seus pés no chão, move as réguas do velho assoalho de tábuas. Ritmo de passo marcado pelo barulho no caminho até sua cama. Começa a brincar com o barulho, pisando a madeira em lugares e com força diferentes, fazendo ritmos que lembravam as batidas de suas músicas preferidas.

Sofia se deita enfim! Acomoda-se na cama, fecha os olhos e cai em sono profundo.

Por volta das 3 horas da manhã, Sofia levanta-se e desce até a cozinha para beber água. O Silêncio dentro da casa é sepulcral, exceto pelo toque de seus pés descalços no assoalho. Generosos goles d`água saciam sua sede seguidos de um longo e barulhento suspiro de alívio. Sofia coloca o copo na pia e volta em direção ao quarto marcando o passo pelas tábuas.

Ao passar pela porta da cozinha para a sala de estar, olha em direção à escada e ouve passos que correm assustadoramente no sótão. Um lento e demorado arrepio sobe pelo seu corpo. Sofia sente o coração disparar enquanto se esforça para manter o silêncio. Ela se encolhe dentro de si mesma como se quisesse ficar invisível. Foram alguns minutos de silêncio total e respiração quase presa contrastando com ritmo das batidas do coração.

– Quem está aí? Sofia pergunta.

Ouve a madeira chacoalhar como se 2 pessoas corressem no sótão. Era assustador ouvir aqueles passos pois ela imaginava estar sozinha na casa. Os passos eram curtos e rápidos. O assoalho denunciava cada movimento na casa, mas Sofia não conseguia ver nada além de seus próprios pés caminhando.

– Quem está aí? Sofia pergunta novamente.

Agora eram 4 pessoas correndo de um lado pra outro no sótão. Sofia continua imóvel com a espinha gelada e um medo que faz seu coração disparar mais uma vez. Quer correr mas o medo a paralisa totalmente. É como se estivesse pregada ao chão.

– Desçam daí agora! Grita Sofia, ascendendo a luz do corredor superior da escada.

Ela olha para cima e nada acontece, nenhum passo ou barulho. Ela dá cinco lentos e cuidadosos passos em direção à escada. Não importa o quanto tente dar leveza aos pés, o assoalho não deixa a casa em silêncio. Um último passo, um barulho mais forte de uma das tábuas e, de repente, a porta do sótão se abre fazendo um enorme estrondo.

Sofia escuta muitos passos pelo assoalho mas não consegue identificar o que são ou onde estão, só sabe que eles desceram do sótão e alguns passaram perto dela. Escuta 4 sons fortes batendo no chão embaixo da escada, a um metro de distância de onde ela está.

Parece que 4 pessoas pularam pela escada, as outras 6 desceram correndo. Sofia é tomada por uma angústia que quase a faz desmaiar. Ela agora sente um ar quente vindo de várias direções.

– Meu Deus! Pensa Sofia.

– São pessoas respirando? Conversa consigo mesma, enquanto seu corpo está pálido e paralisado de tanto medo.

Sofia continua imóvel, apenas sentindo as respirações próximas. Seu desespero é tamanho que não consegue coordenar seu corpo. A mente quer correr e as pernas querem amolecer. O coração bate em ritmo acelerado.

– Saiam daquiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii! Grita desesperadamente com todas as forças do seu corpo gelado pelo medo.

Aquele berro desesperado e estridente de Sofia ecoa em toda a casa e produz, em seguida, um silêncio mortal. Ela não sente mais a respiração próxima nem ouve passos.

Continua paralisada pelo medo, mas corre os olhos ao redor da escada até a porta do sótão que está aberta. Estava tão desesperada que não admitia a chance de ser apenas um sonho. Com aquele silêncio que se seguiu, aos poucos sua respiração foi ficando calma e o coração foi ficando mais compassado.

Então, alguma coisa puxou as pernas de Sofia e todos aqueles passos foram ouvidos correndo escada acima enquanto ela sentia suas pernas fortemente presas por mãos enormes e invisíveis que a puxavam para o hall superior da escada.

Enquanto gritava de medo era levada por uma força sobrenatural até a porta do sótão. Seu instinto a fez segurar a borda da porta tentando se salvar. A força com que é puxada é tão grande que ela não consegue resistir. Ela vê pela última vez a luz da sala quando a porta do sótão se fecha de uma vez fazendo um enorme estrondo.

Agora Sofia está na escuridão total. O medo toma conta de seu corpo novamente, enquanto ela tenta respirar sem fazer barulho. Aquela respiração curtinha parece ser solitária no sótão quando Sofia começa a ouvir passos e mais passos.

 

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Os passos faziam um barulho ensurdecedor naquele silêncio sepulcral da casa de Sofia. Parecia que aqueles visitantes que ela não via estavam tentando deixá-la louca. Quanto mais ela tentasse não ouvir, mais eles sapateavam no sótão.

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Deitada no chão consegue sentir a vibração da madeira como se várias pessoas se reunisse em volta dela. Seu coração dispara outra vez. Lágrimas escorrem de seus olhos arregalados enquanto os passos não cessam.

O assoalho ecoa mais dezenas de passos rápidos que fazem Sofia se encolher de medo e quase soltar o coração pela boca. Ela então sente seu corpo desfalecer de medo quando uma mão velha põe o dedo em sua boca fechando-a.

– Silêncio! Queremos descansar em paz. Diz uma voz rouca e assustadora.

 

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