O Sino da Fazenda

Histórias de Terror - O Sino da Fazenda
Histórias de Terror – O Sino da Fazenda

As 7 Badaladas Daquele Sino de Bronze Anunciavam a Sentença de Morte na Fazenda.

1836, o coronel ainda matutava quem seria o escravo responsável pelas badaladas do sino, que significavam a aplicação da pena de morte na fazenda.

Enquanto o velho fazendeiro lustrava sua arma, deixando-a reluzente, a brisa fria do entardecer refrescava seu rosto e balançava levemente o açoite pendurado no prego da coluna da varanda.

O sino de bronze descansava na varanda lateral da casa grande. A vista era para o tronco de madeira sobre um assoalho de pedras manchadas. Aquele tronco, há um ano, não era utilizado. As terras não produziram nada desde a última vez que aquelas pedras sentiram o sangue quente do último escravo açoitado.

O fazendeiro lembrou os tempos de glória, grande produção, riqueza, seu lote invejável de escravos e o que mais gostava: a hora do açoite. Nunca deixou que o feitor fizesse o serviço, fazia questão de castigar os escravos e dar o exemplo pessoalmente.

Uma forte emoção tomou conta dele quando lembrou da esposa e da querida filha, mortas um ano antes. Não consegue lembrar a última vez que abraçou a filha. Andava sempre ocupado açoitando seus escravos.

No dia em que elas se afogaram, o velho fazendeiro tornou-se um homem ainda mais cruel. Mal sabia ele que seria a última vez que castigaria um de seus escravos no tronco.

Ao cair da noite, se recolhe para seu quarto. Faz algumas anotações e começa a se planejar para o novo lote de escravos que chegaria. Desde o trágico dia da morte de sua família, ele havia prendido os escravos na senzala deixando-os sem comida e sem água. O castigo era para que apontassem o responsável pelo afogamento de sua esposa e sua filha.

Como não houve confissão, o fazendeiro matou o escravo mais antigo, respeitado e querido por seus companheiros de senzala, açoitado até a morte sob os olhares de todos os escravos da fazenda. Os que ficaram, morreram de fome e sede trancados na senzala.

Durante a noite o fazendeiro ouviu o sino dar 7 badaladas. Acordou assustado! Vestiu-se rapidamente, pegou sua arma reluzente e correu até a varanda lateral da casa grande. Não era possível o sino estar badalando! Não havia ordem nem escravos para isso. Ponderou ser apenas um sonho e voltou a dormir.

Na tarde seguinte, um mensageiro chegou à fazenda com uma notícia para o fazendeiro. O cavalo do mensageiro respirava alto e forte pelo cansaço enquanto o rapaz, trêmulo, anunciava ao fazendeiro: o comboio que trazia seu lote de escravos havia sido atacado à noite e todos foram mortos.

O fazendeiro, incrédulo, disse não ser possível e gritou com o mensageiro querendo logo os escravos. O mensageiro, amedrontado, disse que viu todos os escravos, os seguranças e o feitor na estrada,  com as gargantas cortadas.

Com os olhos cheios de raiva o fazendeiro ordenou ao mensageiro o levasse ao local. Durante o trajeto o fazendeiro não disse uma palavra. Apenas cerrou seus olhos raivosos tentando aproximar a imagem de sua ruína financeira.

Quanto mais se aproximava do local cheio de corpos mais seu ódio aumentava. A estrada estava coberta de sangue e, entre as vítimas, estava seu feitor. Responsável pela segurança da carga, não foi poupado nem depois de morto. O fazendeiro passou com o cavalo sobre ele algumas vezes aos gritos de: Canalha Incompetente!

O mensageiro se afastou do fazendeiro que observava seu investimento sobre a terra vermelha. Um rio de sangue cheio de corpos com gargantas cortadas foi tudo o que restou ao fazendeiro naquela tarde quente.

Sua visita à cena durou pouco. Sem se despedir nem demonstrar tristeza ou pena, o fazendeiro voltou galopando para sua solidão na fazenda. O ódio tomou conta do seu corpo e o fez sentir um calor queimando sua garganta. Mas desta vez não havia a quem culpar nem escravos para castigar.

Ao chegar à fazenda logo se dirigiu ao tronco. Conferiu as instalações, caminhou sobre as pedras e prometeu que elas seriam banhadas com sangue novamente. Voltou para a casa grande e se preparou para dormir. O dia seguinte jamais seria esquecido naquelas bandas.

Lá pelas 5 horas da manhã o sol começava a apontar no horizonte. Nascia aquecendo a casa pelos quartos em direção à varanda lateral e se punha iluminando o sangue derramado nas pedras à beira do tronco.

O fazendeiro acordou com 7 badaladas do sino. Ele levantou-se e, rapidamente, trocou de roupa. Ouviu uma gargalhada demoníaca e mais 7 badaladas.

Empunhou a arma, pegou na gaveta mais alguma munição e saiu pela porta em direção ao sino. Não havia nada lá! Olhou ao redor do tronco e não conseguiu identificar se havia algo em volta, pois o dia não estava totalmente claro.

Desceu as escadas em direção à senzala e ouviu mais uma vez aquela gargalhada maldita e o sino badalando mais 7 vezes. Virou-se rapidamente para trás e atirou em direção ao sino. Mais uma vez, não havia ninguém lá.

O fazendeiro ficou ainda mais irritado e seu ódio cresceu. Ele voltou seu olhar para a senzala e viu sua porta escancarada. Cerrou seus olhos tentando identificar o que havia lá dentro. De arma apontada para frente, ele caminhou cauteloso. Passo a passo aproximou-se da porta escancarada e tentou identificar o que rastejava pelo chão de terra.

O ser rastejante parou! A gargalhada ecoou forte mas o fazendeiro não voltou-se para trás, concentrou-se naquele ser que rastejava.

A imagem foi se revelando à medida que o sol se abria. O ser rastejante voltou rapidamente para dentro da senzala. O Fazendeiro parou e ouviu risadas e cochichos lá dentro.

Por alguns minutos ficou inerte, concentrando-se nos sons vindos de dentro da senzala. De repente, um braço negro envolveu o pescoço do fazendeiro segurando-o firmemente, enquanto uma mão enorme apertou seu pulso com força sobrenatural e fez com que soltasse a arma no chão.

O fazendeiro ordenou sua soltura mas não foi atendido. Nesta hora o ser rastejante se revelou à luz do amanhecer. Um escravo com as pernas quebradas saiu rastejando rapidamente da senzala.

O fazendeiro, entre tentar se livrar dos braços que o seguram e respirar, olhou e se espantou com o escravo de olhos negros e sem brilho. Observou com atenção e reconheceu a marca no rosto do escravo.

Impossível! Pensa o fazendeiro. Era Custódio! Havia quebrado as pernas e marcado seu rosto com a identificação de escravo fugitivo. Mas como pode? Ele havia morrido de fome com os outros.

O sino tocou novamente e o fazendeiro ouviu a gargalhada ao seu lado. Os braços e mãos que o seguravam, subitamente, sumiram. Ele rapidamente pegou sua arma e atirou em Custódio.

A imagem do escravo rastejando sumiu assim que atirou. O Fazendeiro pensou estar enlouquecendo. Correu para dentro da senzala e olhou em volta. Não havia nada lá dentro. Voltou-se para trás e viu aproximadamente 100 escravos sentados à beira do tronco.

Não havia brilho nos olhares. Parecia não haver sequer olhos. Eram de uma cor negra opaca e sem o branco dos olhos. As bocas não se mexiam, a pele parecia podre e alguns exibiam ossos com vermes caindo pelo chão. Mas eles estavam lá. Todos aqueles escravos mortos de fome estavam lá, ao lado do tronco, como da última vez.

O fazendeiro deu a ordem para que eles sumissem de lá. Aos gritos, exigiu que os escravos voltassem para o fundo da terra, onde foram enterrados. Nada aconteceu, eles permaneceram imóveis, como se não ouvissem. Neste momento, Custódio passou rastejando com velocidade incrível e se uniu aos outros escravos.

 

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Custódio tinha as pernas quebradas por ser escravo fugitivo. Tinha também o rosto marcado a ferro em brasa. Mas, naquele dia, corria com velocidade sobrenatural, como nos dias de juventude.

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Uma respiração quente se aproximou do fazendeiro e ele sentiu um forte cheiro de carne podre, que lhe causou ânsia. Aquelas mãos fortes o seguraram novamente com força. Por mais que tentasse, não conseguia resistir.

Aos berros tentando se soltar, o fazendeiro foi conduzido e preso ao tronco sem conseguir identificar quem poderia ter tamanha força e igual insolência. Já preso pelos braços, gritava palavras de ordem para soltá-lo e prometia vingança.

Ouviu novamente a gargalhada demoníaca atrás dele. Olhou rapidamente para a varanda e não viu o açoite pendurado. Quando o Sol já se fazia imponente no céu, iluminava aquelas pedras e aquecia as ferragens que o prendiam tronco. Ameaçou olhar para trás. Antes que completasse o movimento o couro do açoite rasgou sua camisa.

Parecia estar em brasa! A dor lancinante que sentiu não se aproximava de nenhuma outra que já tinha sentido. Mais 4 açoitadas com força sobrenatural se encarregaram de rasgar totalmente a camisa, expondo as costas do fazendeiro ao sol e aos escravos que assistiam, imóveis, o castigo. As feridas produzidas pelo couro se estendiam pelas costas do fazendeiro, que apanhava sem trégua.

O açoite corria por suas costas que sangravam e pareciam pegar fogo. A cada açoitada, o fazendeiro gritava de dor com todas as forças que lhe restavam. Os braços poderosos não se cansavam e continuavam com toda a força o castigo.

Os olhos negros de todos os escravos que assistiam, de repente, ficaram vermelhos e brilhantes. Os lábios deles se moviam para um leve sorriso, demonstrando grande satisfação enquanto o fazendeiro era açoitado com uma força nunca vista antes.

O sol aquecia as grandes feridas enquanto elas sangravam, e as pedras tinham sua dose de sangue prometida. O fazendeiro sentia a proximidade de seu momento derradeiro enquanto o sangue escorria para as pedras, enfraquecendo-o e turvando sua visão.

De repente, o castigo cessou. O fazendeiro, sem forças para gritar de dor, olhou com o canto dos olhos para o lado. Passou pela platéia de escravos e viu o açoite ensanguentado pendurado na varanda. Voltou seus olhos para o céu, o sol a pino sobre sua cabeça cegou-o por alguns instantes. Novamente ouviu aquela gargalhada ecoar pela fazenda.

Olhou para o lado da casa e viu uma sombra negra gigantesca e de olhos vermelhos sobre o telhado. Nunca vira uma imagem tão demoníaca. Era como se o próprio demônio estivesse lá. Aquela sombra era tão grande e assustadora que parecia abraçar sua casa, como se fizesse parte dela. Sentiu medo pela primeira e última vez na vida.

Enquanto quase engasgou com o sangue que lhe saía pela boca, o fazendeiro escutou as 7 badaladas do sino. Olhou para a direção da varanda e viu Timóteo balançando a corda. Aquelas gargalhadas eram dele!

As mãos enormes e ensanguentadas daquele escravo cumpriram pela última vez a função que sempre foi dele. Era o escravo mais antigo, aquele respeitado e amado pelos colegas de senzala, o responsável pelas 7 badaladas que davam a sentença de morte na fazenda. Neste momento, a lâmina do machado no pescoço do fazendeiro encerrou sua vida de maldades.

 

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