Eles Ainda Têm Fome

Histórias de Terror - Eles Ainda Têm Fome.
Histórias de Terror – Eles Ainda Têm Fome.

A leitura daquelas malditas palavras faria levantar das tumbas uma maldade que eles nunca poderiam conter.

Dia 18 de novembro de 2012, domingo.

Carlos e dois amigos, Bola e Gilberto, foram passar férias pelo Norte do Brasil. Eram amigos de longa data e comemoravam seus 21 anos, em uma viagem de 21 dias aproveitando as belezas naturais brasileiras, tendo como ponto de partida Belém do Pará.

Ao chegarem ao hotel em Belém, conheceram Evaldo, um Guia da região. Aquele guia atiçou a curiosidade de Bola a respeito da famosa história do garimpo de Serra Pelada em Curionópolis (PA). Com seu inseparável iPad, Bola buscou referências e confirmou algumas histórias que ouvira de Evaldo e conheceu outras. Correu para mostrar sua pesquisa a Carlos e Gilberto sobre as lendas da região.

Evaldo convidou os amigos para uma expedição que partiria dali a dois dias. Bola incentivou os amigos a participarem. Eles concordaram e foram ao centro da cidade em busca de recursos para acampar.

O Guia, que conhecia bem a região por já ter levado outras pessoas para lá, ressaltou que eram necessários todos os recursos em abundância pois a viagem seria demorada. Uma parte seria feita de avião, outra de carro, por estradas não tão boas, e o resto, dentro da selva, seria feita a pé.

Bola, Carlos e Gilberto voltaram à noite ao hotel com suprimentos para os 7 dias de expedição, contanto os dois dias de viagem. Compraram barracas, lanternas, pilhas, repelentes, comida, água, roupas para caminhada e um facão. Também traziam fotos do local e um mapa que compraram numa barraca de artigos místicos.

O mapa falava sobre o crescimento do garimpo e das atividades extrativistas. Mas também, contava histórias de crimes ocorridos no local e de algumas lendas que a população do garimpo passou a compartilhar.

Segundo o mapa, o lugar seria assombrado por garimpeiros assassinados durante o período de grande violência e criminalidade na região de Serra Pelada. Além disso, havia uma localização anotada no mapa sobre uma mina que teria desabado, matando os garimpeiros pela falta de água, comida e oxigênio.

O vendedor do mapa ainda acrescentou que a história oficial era que a mina tinha desmoronado, porém, a lenda era que os garimpeiros teriam encontrado muito ouro e resolveram esconder a mina para evitar saques. Eles sairiam com uma boa quantidade e guardariam o resto para o mercado futuro. No entanto, alguma coisa deu errado, pois os explosivos detonaram enquanto estavam dentro da mina. Ficaram presos com o ouro que tanto amavam, vítimas de sua própria ganância. O Ouro que eles tinham retirado, nunca foi encontrado.

Os amigos não levaram a sério as histórias do mapa, ainda menos a da explosão proposital que deu errado. Mas a diversão na viagem estava garantida. Tentariam encontrar os locais durante a expedição.

 

Dia 19 de novembro de 2012, segunda-feira.

Os amigos se reuniram com o Guia para que fosse programado o roteiro da viagem e também onde montariam acampamento. As instruções eram para que não se separassem, pois não seria possível garantir a segurança de alguém sozinho na região em virtude dos garimpeiros ilegais. E eles eram muitos, escondidos e embrenhados na selva.

 

Dia 20 de novembro de 2012, terça-feira.

A expedição parte rumo à cidade de Curionópolis PA. Após uma hora e meia de viagem de avião, uma caminhonete com bancos montados na caçamba e uma lona como cobertura, os esperava para levá-los até a beira da selva. Uma pausa para o almoço à beira da estrada, cortesia do motorista, munido com panelas, comida e lenha para um fogo no chão e eles estariam liberados. A caminhonete voltaria dali alguns dias, no mesmo local e horário, para buscá-los.

Os 3 amigos e Evaldo partem a pé rumo ao destino, numa caminhada que duraria até o dia seguinte. Montariam acampamento ao entardecer para, ao raiar do dia seguinte, seguirem em direção ao norte entrando na selva e nas regiões dos antigos garimpos. A difícil caminhada manteve os amigos unidos ao guia. Porém a coluna seguia em silêncio absoluto. Somente quebrado pelas falas do Guia que explicava sobre a mata, as plantas, a história e as trilhas que haviam por lá.

O Guia ainda ressaltou que eles fariam rotas alternativas para desviar dos garimpos ativos. Não queria ter problemas com os exploradores da região. Além disso, tinha sido avisado sobre a retomada das atividades extrativistas por conta da alta valorização do ouro, no início dos anos 2010. O Guia sabia que isso traria problemas com assaltantes. Afinal, eram terras sem leis.

 

Dia 21 de novembro de 2012, quarta-feira.

Ao raiar do dia, Evaldo acorda Bola, Carlos e Gilberto para seguirem a expedição. No café da manhã apenas bananas e água, para aguentarem a caminhada sem problemas. Bola era o mais cansado, o excesso de peso não permitia que acompanhasse o ritmo de Evaldo, Gilberto e Carlos, bem mais magros e preparados.

À medida que vão entrando na mata, Evaldo vai à frente com uma espécie de cajado para se proteger dos galhos enquanto Carlos segue com o facão abrindo a mata, com Gilberto muito próximo. Bola segue mais atrás com o mapa aberto tentando encontrar algum indício daqueles lugares marcados.

Finalmente sobem uma encosta com mata mais densa até um plano ao lado de uma pedra. Evaldo decide que ali é um bom lugar de observação e acampamento. Eles montam as barracas e acendem uma fogueira. Durante a noite, eles conversam sobre o mapa. Evaldo argumenta que as pessoas fantasiam e aumentam muito as coisas, mas que, a lenda da explosão da mina é muito forte. Porém relata que nunca houve indícios reais de que a mina, de fato, existisse.

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Evaldo conta-lhes também, que a lenda era uma forma de afugentar as pessoas que se aventuravam ou pensavam em ir até o garimpo. Como forma de controlar a população e conter o aumento da criminalidade.

Bola diz que havia coordenadas no mapa, se houvesse um GPS seria possível encontrar o lugar. Carlos responde que seria uma bobagem e perderiam tempo. Gilberto não diz concordar nem discordar, enquanto Evaldo pergunta aos amigos se eles realmente querem tentar. Haveria um desvio na rota que estava programada, portanto deixariam de conhecer alguns lugares, pois a viagem deveria durar apenas 5 dias de acampamento.

Os amigos discutem entre si e resolvem fazer o desvio. Eles escolhem o lugar no mapa que querem conhecer e vão dormir ansiosos pelo dia seguinte.

Dia 22 de novembro de 2012, quinta-feira.

O dia mal amanheceu e eles já estão acordados recolhendo as barracas e apagando a fogueira e qualquer vestígio para não chamar a atenção. A coluna segue em direção à Lagoa da Cratera, Evaldo usa seu GPS e compartilha com os 3 amigos a visão deslumbrante que tem pelo binóculo que carrega sempre em sua bolsa.

Após 4 horas de exaustiva caminhada, fazem uma pausa para o almoço. Enquanto isso observam a rota em direção à gruta apontada no mapa. Descrente de que encontrarão, Evaldo imagina que dali a 3 horas, mais ou menos chegarão ao ponto.

Após o almoço eles descansam por 1 hora e meia. Após o descanso, seguem rumo ao ponto desejado. Após 2 horas de caminhada, Evaldo para bruscamente e pede que todos se abaixem.

Os amigos, assustados, não entendem o que está acontecendo. Evaldo, gesticula desesperadamente com os braços e insiste que se abaixem e fiquem quietos. Os amigos finalmente obedecem.

Carlos põe as mãos trêmulas nos ombros de Evaldo enquanto Gilberto e Bola se entreolham apavorados. Evaldo faz sinal para que permaneçam ali enquanto ele vai vistoriar o que havia logo à frente. Ele sai abaixando entre os arbustos e segue em direção a uma fumaça quase apagando.

Os amigos ficam abaixados, quietos e paralisados de medo. Foram 10 minutos de puro terror enquanto apenas os pássaros e o vento é que faziam barulho. Então eles escutam passos quebrando galhos no chão. Os passos se aproximam deles, cada vez mais perto. Eram passos seguros, não parecia alguém que não queria ser notado.

Evaldo, enfim, aparece entre os arbustos novamente. A cara dele está tranquila e ele convida os amigos a seguir viagem. Eles se levantam meio desconfiados. Caminham atrás de Evaldo e chegam até uma clareira, à beira de uma lagoa, onde a fumaça de uma fogueira quase se apagava. A lenha já havia virado cinza e o guia mostra que ali havia um acampamento abandonado a pouco.

Eles inspecionam o lugar e vêem que o local foi abandonado às pressas, mas não sem antes ser destruído. Os amigos perguntam a Evaldo as razões e o guia pondera que podem ter sido garimpeiros descobertos pela polícia. Era normal garimpeiro ilegal denunciar a posição de seus rivais. Pela denúncia anônima, a polícia os localizava com uma patrulha aérea.

Bola então pergunta para onde eles iriam quando descobertos. O guia responde que eles se embrenham na selva e ficam escondidos até a polícia chegar até o local e fazer a apreensão dos equipamentos. Depois eles encontram outro local para montar seu acampamento e continuar garimpando ilegalmente. Algumas vezes até voltam à cidade para dar um ar de normalidade.

A caminhada continua e eles, após uma hora e meia de caminhada exaustiva, chegam ao local onde o mapa indica uma gruta. Porém, a única coisa que encontram é uma grande pedra no chão formando uma espécie de assoalho e uma outra logo acima, misteriosamente posicionada formando um abrigo.

A formação intriga os amigos pela sutileza com que uma pedra está sobre a outra. Um equilíbrio tênue que não os encoraja a dormir embaixo deste abrigo. Como a noite se aproxima rapidamente, eles decidem acampar por ali e, pela manhã, decidir se voltam ao roteiro original, ou se permanecem seguindo o mapa místico.

Uma minuciosa análise no mapa indica os textos bem enfeitados e destacados. Para Carlos, Evaldo e Gilberto apenas marketing. Para Bola um mistério. O “X” no mapa direciona a um box de texto onde eles lêem o seguinte:

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A alvorada faz o sol revelar à sombra da pedra da boca o local onde se come. A riqueza foi conquistada com luta, sua manutenção feita com sacrifícios. Das profundezas surge a disposição para pelear e a força para matar. À beira da sombra encontre o altar, a distância é sua segurança, o que te aproxima é sua ganância.

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Por alguns instantes eles ficam imaginando o que quer dizer. Chegam juntos à conclusão que a pedra da boca é exatamente aquela formação em que eles estavam. Um arrepio sobe pela nuca de Bola enquanto suas mãos trêmulas chacoalham o mapa, sob o olhar dos outros três.

Eles acalmam Bola dizendo que não há nada demais lá. Embora Evaldo saiba que algo de estranho está acontecendo, pois já tinha ouvido falar dessa pedra quando era criança, porém, ela nunca tinha sido encontrada.

O guia começa a se lembrar do caminho que fizeram. Então ele se atenta que chegaram à pedra pois deram a volta por trás da montanha. Aquele acampamento abandonado os fez seguir por uma outra trilha e, portanto, um novo caminho.

Ele olha para os três amigos, mantém a calma, e diz para todos dormirem. Ao amanhecer eles investigariam a projeção da sombra citada no texto.

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Dia 23 de novembro de 2012, sexta-feira.

Amanhece o dia e o sol começa a projetar uma sombra que se assemelha a um bico de pato aberto. A pedra da boca existe mesmo! Pensa Carlos. À medida que o sol projeta a sombra, o 4 rapazes observam silenciosamente e atentamente para onde vai a sombra do bico.

Eles focam a ponta da sombra e vêem que ela vai para a mata. Gilberto, Carlos e Evaldo se dirigem até lá. Bola está morrendo de medo e fica paralisado olhando a sombra. Ele está tomado pela magia do lugar e está incorporando a veracidade das lendas. Enquanto os outros estão curiosos e apreensivos com a segurança de todos naquele lugar isolado.

Bola fica arrepiado quando observa, não a ponta da sombra, mas o meio. A projeção, como se fosse uma tesoura, para em uma árvore com o tronco aparentemente riscado. É um tronco robusto com grande diâmetro, capaz de esconder um homem.

Bola, ainda sem palavras, aponta, com as mãos trêmulas, a árvore. Enquanto ele fica paralisado tentando balbuciar as palavras. Carlos, Evaldo e Gilberto exploram a mata sem encontrar vestígios de nada.

Então Gilberto cutuca Carlos e Evaldo, apontando para Bola. Carlos rapidamente pergunta a Bola o que está acontecendo e ele só consegue tremer e apontar a árvore. Carlos insiste em saber o que há de mais lá.

Bola respira fundo e, ainda tremendo, aponta um pouco mais para cima. Gilberto pergunta se eles está querendo mostrar a árvore. Bola logo responde num acesso de coragem:

– Cruz! Vejam a Cruz!

Os três olham para o tronco subindo o olhar em direção à copa, logo acima, entre as folhas há um galho atravessado na horizontal, preso com cipó, formando uma cruz.

Os Três correm e se juntam a Bola que está apavorado. Todos os rapazes agora começam a se envolver com a lenda e passam a não duvidar da história do mapa místico.

Carlos se enche de coragem e vai até a árvore. Quando chega até lá, observa atentamente o tronco e percebe que não há indícios que alguém tenha subido ali para montar aquela cruz, a não ser que tenha sido há alguns anos.

Ele dá a volta na árvore e some dos olhares apavorados de Bola, e curiosos de Gilberto e Evaldo. Depois de alguns minutos Carlos dá um grito que faz os corações dos outros três dispararem.

– Tem uma placa aqui! Grita Carlos.

– O que está escrito? Responde Evaldo.

– Está difícil de ler! Devolve Carlos, olhando mais de perto aquela placa de madeira pintada que, misteriosamente, não estava desbotada.

– Esta placa deve ser recente pois não está totalmente podre. Disse Carlos.

– Venham aqui. Prosseguiu ele.

– Estamos bem aqui. Responde inesperadamente Bola.

Carlos livra a placa das folhas e do lodo acumulados, e consegue decifrar o que está escrito lá.

– Consegui! Vejam o que está escrito: “Um passo atrás aos prudentes e um passo à frente aos destemidos. Que encontrem seu Eldorado com cuidado, pois eles têm fome.” Recitou Carlos.

Quando terminou de pronunciar as palavras uma fria brisa passou de repente pela nuca de Carlos, arrepiando seu corpo e balançou os cabelos de Gilberto, Evaldo e Bola. Os últimos sentiram calafrios com aquele vento inesperado num dia tão quente.

Evaldo começa a lembrar das brincadeiras de criança e dos momentos que viveu naquela região, ao lado do pai, garimpeiro ilegal. Começou a sentir medo e vontade de voltar. Nunca poderia imaginar que aquela pedra, aquela placa e aquela frase existiam.

Sentiu saudades da mãe e lembrou de seus conselhos. Ela costumava dizer: “Não duvide da sabedoria popular pois o povo de Deus não mente. Se sentir medo apenas se afaste e confie no amor de Cristo.” lembrou disso apertando a correntinha com uma cruz que carregava em seu pescoço. Feita com o pouco ouro que sobrou para seu pai, em alguns anos no garimpo.

De volta à realidade, ouviu Carlos os chamando até a árvore. Era como se o tempo tivesse parado enquanto ouvia o conselho de sua mãe.

– Precisamos ir embora. O transporte está tratado e estamos a dois dias do ponto de encontro. Disse Evaldo.

– Acho melhor irmos mesmo. Completa Bola.

Gilberto, sempre indeciso, olha para Bola e Evaldo e depois direciona seu olhar a Carlos que responde: Viemos até aqui, achamos isso, vamos ver o que mais é possível encontrar. Se não houver mais nada vamos embora.

Evaldo fecha os olhos em sinal de temor pelo que estava por vir. Ele sabia que havia algo de errado mas não podia contar aos outros tudo o que sabia, sob pena de ser cobrado por isso. Mas o que mais o assustava era a leitura em voz alta das palavras da placa e aquele misterioso vento que soprou no exato momento da leitura.

Gilberto puxa Bola pela mão até a árvore. Evaldo segue atrás, repassando, em pensamento, todas as orações que conhece.

Ao chegarem atrás da árvore encontram Carlos raspando o chão com os pés tentando encontrar uma porta ou algo parecido. Carlos acredita que se existe entrada da mina está ali. Bola responde que, de acordo com o mapa, a mina seria a algumas horas dali. Evaldo então responde que aquilo deveria ser brincadeira do pessoal pra vender mapas.

Eles vasculham por uma meia hora um raio de 200 metros em torno da árvore e não encontram nada suspeito. Carlos reúne todos e diz que está disposto a seguir em direção à mina. Evaldo pondera que eles precisam voltar ao ponto de encontro para voltarem pra Belém. Bola consente com a cabeça e Gilberto diz que o que eles decidirem estará decidido.

Carlos, em tom de liderança, pega o mapa e chama Evaldo para decidir qual o melhor caminho para retornarem. Eles observam atentamente as marcações do mapa. Carlos quer seguir em direção aos pontos marcados, Evaldo quer justamente o contrário. Após alguma insistência, Carlos concorda em seguir o caminho de volta pela frente da montanha. Diferente do rumo que os levou até lá.

Eles recolhem rapidamente os materiais do acampamento e rompem em marcha de volta. Após uma hora e meia de caminhada, a hora do almoço se aproxima, eles buscam um lugar para acender uma fogueira.

Quando recolhem a lenha, um barulho assustador de galhos se quebrando na floresta começa a se aproximar deles. De repente um grito de dor ensurdece os amigos que se jogam no chão e atrás dos arbustos. Estão apavorados!

O grito não se estende por mais de dois minutos e logo a selva se cala novamente. Os 4 rapazes respiram aceleradamente com seus corações disparados, enquanto permanecem imóveis escondidos em arbustos.

Outra vez um barulho de galhos se quebrando e se aproximando e um novo grito de dor é ouvido por longos 3 minutos. Eram gritos desesperados de dor, que indicavam algo assustador acontecendo.

Os rapazes permanecem amedrontados, calados e escondidos pelos próximos 10 minutos. Quando as coisas pareciam calmas, Evaldo gesticula para que se levantem. Eles se reúnem e Carlos toma a frente do grupo.

– O que está acontecendo? Pergunta Carlos a Evaldo.

– Não sei. Responde Evaldo.

– Estes gritos são assustadores, será que estamos em algum acampamento? Perguntou Carlos.

– Pode ser, vamos embora. Conclui Evaldo, agora pálido de medo.

Eles se recompõem, desistem do almoço e seguem em passo acelerado de volta. Nem 10 minutos de caminhada e Bola dá um grito alto de medo. Carlos e Gilberto correm para ver o que ele tem e Evaldo pede que façam silêncio.

Quando os amigos chegam até Bola ele está chorando e muito apavorado com um corpo todo dilacerado no chão. Os amigos se entreolham assustados e chamam Evaldo para ver aquilo. O Guia chega e constata aquilo que não queria acreditar.

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A lenda é verdadeira. Evaldo avalia a situação do corpo descarnado. Apenas os ossos e muito sangue em volta havia sobrado. A carne e os órgãos daquele corpo haviam sido devorados com rapidez inimaginável.

Uma breve olhada entre outros arbustos e mais um corpo foi encontrado. As mesmas características. O corpo dilacerado a carne comida e os ossos com algumas fibras e músculos haviam sobrado. Além disso o facão que a vítima carregava e seus utensílios estavam ao lado do corpo.

Os rapazes estavam apavorados. Evaldo estava tomado pelo desespero e clamou que fossem embora dali. Carlos ainda explorava os corpos enquanto Gilberto consolava Bola que chorava copiosamente.

Depois de longos 5 minutos de agonia, Evaldo os convence a prosseguir.

Mais 2 horas de uma caminhada difícil e eles observam um novo acampamento no meio da selva. Está destruído e não há fogueira. O dia está acabando e eles estão exaustos.

Evaldo decide parar por ali para descansar e passar a noite. Sabe que é arriscado. Pondera os riscos com os demais e em decisão unânime eles param. Uma observada pelo binóculo e nenhum movimento dentro do acampamento.

Eles se aproximam cuidadosamente. Observam ao redor e percebem que há algumas ferramentas encostadas no rancho. parecem ter sido usadas recentemente. Ao dar a volta na tapera, Carlos se assusta e cai no chão ao tentar andar para trás.

– Meu Deus! Grita Carlos.

Os demais correm e se deparam com mais 10 corpos dilacerados. São ossos presos com alguma coisa de carne e muito sangue em volta. Foram devorados também.

Bola se desespera e chora sem parar, está com muito medo de morrer. Gilberto está apavorado e não sabe o que fazer para controlar o amigo. Carlos está paralisado de medo e Evaldo tenta, desesperadamente, mantê-los calmos.

O dia vai escurecendo ainda mais e eles decidem dormir ali, ao lado daquelas ossadas descarnadas. Cada um escolhe um local onde não haja sangue espalhado para deitar no chão, apoiando as cabeças sobre as bolsas.

No dia seguinte partiriam cedo, caminhando sem trégua para o ponto de encontro. Não viam a hora de sair daquele lugar assustador. O medo mera tão grande que um dia sem refeições não fazia a menor diferença. A esta altura, eles não sentiam fome. Deitaram. Respiravam sem fazer barulho e suforacaram o medo. Tentaram por horas dormir mas o coração disparado não deixava.

O Pavor tomava conta a cada barulho na selva. Os quatro rapazes não se comunicavam com medo de chamar a atenção ou assustarem uns aos outros. A noite seria longa e desesperadora.

À medida que a madrugada avança, o medo vai sendo vencido pelo cansaço e os quatro rapazes caem no sono, em meio aqueles corpos descarnados e aquele sangue espalhado pela tapera destruída.

 

Dia 24 de novembro de 2012, sábado.

O sol nem bem nasceu e Bola já abre os olhos de repente. Não consegue se lembrar o que aconteceu. Seu corpo doía tanto que ele mal conseguia se mover. Não entendia porque estava tão cansado. Pensou ter sonhado com coisas horríveis.

Ao passar os olhos pelo ambiente, ainda em penumbra, nota que os amigos estão todos ali. Sente um alívio. As lembranças começam a aparecer e o medo volta na mesma medida. Silenciosamente ele tenta se levantar sem acordar ninguém e sem chamar a atenção.

Consegue se levantar e vai caminhando em meio aos corpos descarnados amontoados em um canto como se tivessem morrido ao mesmo tempo. Ele dá alguns passos e para à beira da tapera. Uma brisa fria balança seu cabelo e um arrepio percorre seu corpo.

Ele olha mais à frente e fica imóvel tentando identificar o que está acontecendo na selva. Fica em silêncio completo. Escuta um barulho como se fosse o rosnar de um cão, misturado ao barulho de tecido sendo rasgado e algo sendo arrastado no mato.

As imagens que passam em sua cabeça não são claras e ele força a memória para tentar lembrar de algo que possa explicar o que escuta. A alvorada prossegue, clareando a visão de Bola. Agora ele consegue identificar alguém logo mais à frente.

Parece um homem grande com as costas largas, um macacão jeans surrado, rasgado e manchado de sangue. O homem parece estar sem camisa. Bola não consegue entender, mas percebe que está se alimentando.

Nesse instante o homem joga para trás algo comprido que cai ao lado de Bola. É uma perna humana apenas com ossos e algum pouco de carne. O homem estava se alimentando de carne humana.

Bola tem vontade de gritar mas não consegue se mover. O homem está logo à sua frente, sem perceber sua presença.

Carlos acorda repentinamente com o barulho dos ossos caindo ao chão e vê Bola em pé paralisado. Ele levanta silenciosamente e chama Evaldo e Gilberto colocando as mãos em suas bocas para que não possam gritar, caso se assustem.

Carlos segue silenciosamente até Bola e tem a mesma visão aterrorizante do amigo. Não consegue acreditar no que vê. Aquela criatura de costas enormes, parecido com um homem, devorando o que parecia ser uma pessoa do acampamento.

Aquela brisa volta e gela os corpos dos 4 rapazes. Evaldo não quer nem ver o que já imagina estar logo à frente. Gilberto cola em Bola e Carlos e fica chocado com a criatura que parece não perceber a presença os rapazes ali.

De repente, a criatura se levanta. Joga perto da tapera aquilo que sobrou do corpo que estava devorando. Os rapazes observam por trás dos sacos que fazem uma meia parede na casa. A criatura tem os braços feridos, quase que somente ossos, a cabeça também é uma caveira com alguns pedaços de carne colados.

Uma visão que embrulha o estômago de Bola e quase o faz vomitar. A criatura sai em direção à floresta densa. Os amigos se entreolham e demonstram todo o pavor em ver aquele monstro devorador de corpos logo ali. Não sabem o que fazer, parece um problema sem solução. Então, alguns minutos de silêncio.

– O que está acontecendo Evaldo? Avança Carlos em direção ao Guia.

– São os garimpeiros. Responde Evaldo.

– Não existem pessoas deste tamanho, que garimpeiros? Pergunta Carlos.

– Aqueles, da mina que explodiu. Murmura Evaldo.

– Como pode ser? Você disse que era só lenda! Gilberto rebate.

– Também achei que fosse apenas lenda. Responde Evaldo.

Os amigos então se revoltam contra o guia acusando-o de ter enganado eles. Se soubessem que esses monstros existiam nunca teriam ido lá. Cobram dele a solução para saírem daquele lugar vivos.

Evaldo logo rebate as acusações dizendo que tentou ir embora antes que Carlos conseguisse ler as palavras daquela placa. E continua: segundo a crença do povo que vivia ali, quando aquelas palavras são lidas, os garimpeiros saem da mina em que vivem para saciar sua fome.

Histórias de Terror - Eles Ainda Têm Fome.
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Evaldo explica melhor:

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Eram sete garimpeiros que encontraram a mina. Fizeram um pacto de retirar uma parte do ouro e esconder a mina para que pudessem voltar lá e explorar mais, depois da febre do ouro na região. Quando estavam fazendo o trabalho de retirada, deixaram um deles para fora, como segurança, enquanto os outros transportavam o ouro. Porém, o garimpeiro que ficou na segurança ativou os explosivos, fechando a entrada da mina e matando seus companheiros de fome e sede. Acabou fugindo com o ouro. No entanto, os companheiros tinham cavado uma saída por outro lado da mina.

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Mas, com medo de serem roubados, acabaram ficando e morrendo lá. Seus espíritos tinham ido embora, mas seus corpos, sem alma, ficaram presos ao ouro que tanto amavam. Prometeram defender a mina de qualquer um que se aproximasse, matando e se alimentando de seus corpos. A placa, é um chamado. Cada vez que alguém diz aquelas palavras em voz alta, os garimpeiros saem da mina e matam todos que estão à sua volta, pois consideram todos uma ameaça. Por isso a placa pede: Um passo atrás aos prudentes e um passo à frente aos destemidos. Que encontrem seu Eldorado com cuidado, pois eles têm fome.” Quando a fome dos garimpeiros estiver saciada, eles sairão da mina em busca daquele que os traiu para uma vingança.  

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Ao terminar de contar a lenda real, Evaldo percebe que os amigos estão brancos. Aterrorizados e desnorteados. Carlos começa a andar de um lado ao outro repetindo em voz baixa que iria morrer.

Gilberto, geralmente o mais quieto, não consegue conter a emoção e chora desesperado com a possibilidade de ser devorado pela criatura que havia visto.

– Perae! São seis criaturas destas? Pergunta Carlos.

– Fora da mina apenas três. Devolve Evaldo.

– Estamos perdidos. Emenda Bola.

– Vamos embora em nossa caminhada. Temos que arriscar. Decide Evaldo.

Os rapazes saem em disparada pela floresta amedrontados e sem olhar para trás. Cada barulho no mato apenas dá mais motivação para que corram desesperadamente. Há um longo caminho até o ponto de encontro e eles tentam se afastar o mais rápido possível da região da mina.

O desespero é tão grande que eles acabam correndo em direção ilógica, caindo direto num outro acampamento ilegal. Sem perceber estão na clareira junto a outros garimpeiros. O susto é mútuo. Quando os rapazes se dão conta eles param juntos e olham para os garimpeiros.

Cerca de 13 homens rústicos e maltratados pelo tempo apontam as armas pra eles. Perguntam o que eles estão fazendo ali. Evaldo diz que estão fugindo dos 6 garimpeiros da mina perdida. O líder do acampamento fala de forma rude com eles que aquela história é bobagem e manda um de seus companheiros revistar os rapazes.

Bola sente aquele vento passando três vezes e gelando sua espinha. Ele sabia que estavam ali. Antes que o garimpeiro pudesse revistar os rapazes, um gancho atravessa o corpo do líder do acampamento e o puxa com força para longe. Outros dois garimpeiros são surpreendidos por duas mãos esqueléticas esmagando e arrancando suas cabeças.

As criaturas estavam lá no acampamento. De repente, o corpo dilacerado e descarnado do líder reaparece, preso à sua cabeça que não foi devorada. Aquelas criaturas metade humanos e metade esqueletos, por alguma razão mantinham suas cabeça apenas com o os ossos.

Os garimpeiros tentam atirar e matar as criaturas que pareciam imunes, e foram devorando um a um aqueles do acampamento. Um dos garimpeiros chora desesperadamente e diz que não é o destemido. Repete o mantra diversas vezes, antes de ter sua carne devorada por uma das criaturas.

Os 3 amigos se abraçavam no chão enquanto Evaldo rezava e se escondia embaixo de algumas folhas de palmeira que estavam ali. Enquanto isso, os garimpeiros eram devorados por 3 criaturas enormes e assustadoramente vorazes. Seus corpos viraram apenas ossos e cabeças.

Bola dá uma olhada rápida e percebe que a as criaturas comem a carne e ela se incorpora ao próprio corpo. À medida que descarnam e devoram aqueles homens, os músculos e órgãos vão aderindo, completando e regenerando o corpo das criaturas.

Os treze homens foram devorados. As criaturas agora se voltam para os amigos. Evaldo dá um grito para que corram pois eles ainda têm fome. Quando se levanta, o gancho vai em direção a seu peito e ele é logo puxado para os braços de uma das criaturas.

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Logo em seguida, Bola é pego pelas pernas e com muita força, a criatura consegue quebrar ao meio seu corpo. Ele morre em segundos. Gilberto olha para o amigo sem saber o que fazer. Se encolhe no chão com seus braços sobre o rosto tentando se proteger.

O corpo de Bola rapidamente fica apenas em osso. Evaldo, com o gancho cravado no peito e um de seus braços dilacerado, grita de dor e implora por sua vida. Carlos grita desesperadamente, está de joelhos em frente a uma das criaturas que o agarra pelo pescoço e o levanta no ar.

As três criaturas pareciam insaciáveis. Seus corpos enormes ainda precisavam de muita carne para ficarem completos. Com exceção da cabeça que exibia os ossos, alguns pedaços de carne e olhos humanos protegidos apenas pelas órbitas do crânio. Eram criaturas demoníacas que não demonstravam sentimentos.

Após devorar Bola, a criatura agarra Gilberto pelos braços e abre seu corpo ao meio como se fosse papel. Joga metade de seu corpo para uma das criaturas que descarna aquela pessoa franzina e a devora em segundos. Enquanto isso, a outra metade de Gilberto é devorada rapidamente por outra criatura. Os ossos de Gilberto e sua cabeça dividida, agora repousam ao lado dos destroços de Bola.

Ao ter uma das penas arrancadas, Evaldo implora por sua soltura apontando para Carlos e gritando com alguma dificuldade:

– Ele é o destemido.

As duas criaturas com as mãos cheias de sangue e os olhos dominados por ódio se voltam para Carlos.

Evaldo acaba morrendo quando a criatura arranca sua cabeça e devora uma de suas pernas, jogando o que sobrou do corpo fora.

Carlos é levado pelas criaturas para a pedra da boca. Ainda com vida, ele assiste ao ritual macabro que faz abrir uma porta logo abaixo da árvore da cruz. Aterrorizado ele vê as outras três criaturas emergirem do buraco aberto no chão. Diferente dos três primeiros, essas criaturas ainda tinham os corpos bem esqueléticos e exibiam olhos mais profundos e sombrios, sem aquele branco dos olhos dos outros.

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Histórias de Terror – Eles Ainda Têm Fome.

Aquela visão aterrorizante parecia o fim da linha. Tentava imaginar o que iria acontecer, tinha muitas imagens na sua cabeça e em fração de segundos alguma coisa selaria seu destino. De repente, Carlos é jogado ao chão. A pancada foi forte, não conseguia se levantar. Imaginou que estava com a coluna quebrada. Uma das criaturas arrancou seu braço. Carlos teve espasmos de tanta dor mas, consciente, viu a criatura escrever na placa com seu sangue.

Carlos compreendeu que, ao dizer a frase, havia desafiado as criaturas, por isso foi apontado como “o destemido”. Teve seu corpo quebrado pois não poderia dar o passo à frente e nem um passo atrás. Ele seria o sacrifício.

 

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